quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Gemidos bossanovenses

Eu, hoje, muito mais fã de Raul do que outrora, venho corroborar veementemente com o que ele prega ao longo do seu repertório maluco: a Bossa Nova é realmente um coliforme fecal. Poucas imagens são tão piegas e terríveis quanto a de João Gilberto sentado num banco, dedilhando o violão e sussurrando palavras rimadas com muito esmero. Aliás, ninguém canta na Bossa Nova, solta-se uns gemidos e está bom demais, primazia pura para intelectuais e gente bem posicionada na cadeia alimentar.

Mas assim como o Maluco Beleza tinha uma queda pelo bregão da era do rádio, aceito a Bossa Nova com ressalvas por conta de uma única figura, talvez haja outro de quem não lembro agora, figura ilustre a quem esse movimento musical deve impagavelmente, nosso indefectível Vinícius de Morais. Se você encontrar alguém mais boêmio e sabedor da alma humana do que ele, avise-me. O imenso poetinha simplesmente implantou poesia onde só havia até então cantigas de amor rimadas (nem vou dizer ritmadas, pois daquele tempo nossa cultura musical herdou mais o que não fazer). Ele, sim, revolucionou. E vestido diplomaticamente num fato (olá, Portugal!) no início da carreira como músico. Foi o primeiro engomado a subir num palco pagão no Brasil. O melhor de tudo, porém, era que em Vinícius, mesmo falando de amor, não existia essa pieguice emo dos nossos dolorosos dias. Basta-lhe o amor como humanamente é.

Se você gosta de Bossa Nova, que bom! Você não tem mau gosto. Ela é menos perigosa que Calypso, Aviões do Forró e companhia. Bossa Nova é música de ninar menino malvado. É um movimento sem causas, sem pretensões dimensionadas a reflexão. Ai de nós se ficássemos nela! Ai de nós se não fosse Luiz Gonzaga, o Tropicalismo, o Rock, o Manguebeat! Estaríamos até hoje nos embriagando às margens do rio Mundaú imaginando que elas são na verdade a praia do Leblon.

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