domingo, 14 de dezembro de 2008

RessaCapitu

Em cinco capítulos, com muito psicodelismo, grandes interpretações, trilha sonora impecável e fidelidade ao texto original com nuances pop, a minissérie Capitu se fez. De longe a melhor adaptação de uma obra literária que EU já vi. A cada capítulo o sentimento de “algo poético no ar” se confirmava. Uma delícia! Dom Casmurro, considerada a obra maior de nossa literatura brasileira (EU discordo), se transformou maior aos meus olhos, deu vontade de reler o Machado de Assis.

O diretor Luiz Fernando Carvalho novamente nos fez imaginar além do que se vê no vídeo (lembra A Pedra do Reino?), principalmente em relação aos famosos “olhos de ressaca” de Capitu. Depois de conhecer a beleza de Letícia Persiles essa metáfora ganhou mais consistência em mim, e de quebra ela ganhou mais um admirador da sua banda Manacá, que conheci mediante as notícias na mídia a respeito da minissérie.

Porém, o que seria desse projeto sem a interpretação e narração do ator, apresentador e poeta Michel Melamed? Nunca imaginei que ele fosse tanta coisa ao ver seu programa na TV Cultura (por sinal, ótimo, pena que esqueci o nome). Destaco o olhar impassível nas cenas finais, quando o Bento Santiago reencontra Ezequiel, seu filho (?).

Outro ponto alto foi o clima de dúvida e insinuações que pairaram sobre o triângulo Bento-Capitu-Escobar. Quem já leu o livro sabe do ciúme de Bentinho por Capitu, da desconfiança sobre a relação desta com Escobar, que aparece várias vezes na sua casa quando o marido está fora. Ao leitor diletante, mais desinteressado, talvez passe despercebido o amor platônico de Bento e Escobar. As declarações do narrador são tão carregadas que se poderia trocar o nome deste pelo daquela. EU, que li o romance mais por deleite que outra coisa, só percebi isso quando li um célebre ensaio do Millôr Fernandes (como gostaria de reler agora!). Isso, claro, ganhou proporções enormes na minissérie. Estou convencido de algumas coisas: Bentinho foi traído e depois de tantas tentativas fracassadas de engravidar Capitu, concluo que era estéril (a obra não diz isso, mas eu não tô fazendo crítica literária mesmo!) sendo Ezequiel filho de Escobar. O Millôr vai mais longe e diz que Bento e Escobar tinham uma relação homossexual. Embora soe machista, é minha sincera opinião.

Enfim, uma obra grandiosa com uma adaptação primorosa. Quem não leu o livro que o faça logo. Quem não viu a minissérie, paciência, daqui a uns meses a Globo lança em DVD.

Estou meio embriagado até agora. Tô com uma ressaCapitu da gota!

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Atualização importante: Tanto tempo depois, eis que encontro as palavras do Millôr (R.I.P.) sobre Dom Casmurro, aqui.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Reflexão sobre o filme “Mar adentro”

Afinal, o que é a vida? Ou, a quem ela pertence? Longe do intangível, não sei, perto dele me sinto escravo do tempo. Seria a vida apenas um instante no grande relógio do cosmos, como parece ser? De qualquer forma, o consenso é ilusório para estas perguntas redundantes (ecos), ao menos pode-se afirmar que há quem deseje viver, não tendo muitas razões para isso, entretanto suficientes a si, e para não alongar muito, há quem deseje morrer pelo mesmo. Para a maioria das pessoas, a morte é o maior vilão da estória da humanidade, mas também serve de consolo e fim a dor de, por exemplo, estar privado das sensações.


Vida: não é uma coisa, não é qualquer coisa. É algo indefinível. Há uma vida para cada ser que vive, um conceito diverso e único para cada humano. Como dizer o que é sem equipará-la aos objetos? Ela está aí, em todos os lugares desse mundo.


Agrada-me escutar o ar entrando e saindo dos pulmões quando respiro mais forte, sinto-me em paz no silêncio total quando nada escuto nem penso, de preferência vendo o céu azul à tarde, as nuvens, o verde. Vivo. Sou tão mais vivo quando as pessoas que amo me sorriem. Se eu perder estas coisas, perderei meu conceito de vida.


Para quem não sabe, nem deseja saber, mas entende que há razões para viver, provérbio nenhum se encaixa melhor aqui que o “Carpe diem”.


Bem ou mal, estou vivendo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Nossa história


Ninguém foge à história. Somos parte dela, produzimo-la constantemente e somos por ela produzidos. Nosso anonimato junta-se ao anonimato de outros e assim compomos as massas que fazem o motor funcionar, silenciosamente.

Pensar sobre nós mesmos é uma atitude filosófica que envolve o esquadrinhamento de nossas raízes. Quem éramos antes de existirmos é o que nos faz, de algum modo, ser o que somos hoje.

O mais fascinante na história é que não há meio de conduzi-la. Por mais que se tente, ela sempre nos surpreende.

Muitas vezes intentamos mudar o mundo, e mudamos, mas não o fizemos como realmente queríamos. Por conta disso, o ar que respiramos está impregnado de odores seculares da labuta de pessoas que construíram os alicerces nos quais erguemos nossas histórias...

Mas há sangue por toda a parte e exploração... e miséria, e desgovernos, e pranto...

Precisamos mudar novamente... ou acabar de vez com a história.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Um delicioso conto de Drummond


Retirado integralmente do livro "Contos plausíveis", 5ª edição, publicado pela Editora Didática Paulista e Record, em 2002.

A incapacidade de ser verdadeiro

Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas.

A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.

Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:

- Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.

(Carlos Drummond de Andrade)