segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ventiladores, caminhos e janelas

Atualmente, já consigo dormir bem, apesar do calor, das motocicletas e dos ecos do trem, desde que não me faltem água para um banho e um ventilador. Deitar tornou-se um ritual noturno. E diurno se for o caso.

Não abro a janela do quarto nem afasto a cortina. O sol é implacável o dia todo. O sol queima eu queima o menino. Caminho da escola. Escola: "Miguel!", ele vem rindo, às vezes, e conversa pelo trajeto de casa, chora, às vezes, quer todos os brinquedos das lojas e dos camelôs. É sabido demais, quando quer beija as moças que o enfadam, sempre cumprimenta a Dona Socorro da banca de tecidos. Ai de meus braços magrelos quando não quer caminhar. Miguel é quem me abre as janelas.

Acredito que estou quase habituado ao lugar. Pelo menos estranho é o dia sem feira, mesmo sendo uma terça. Mas deve ser o horário de verão ou o fim de ano que chega mais rápido os culpados por isso. Coisas urgentes. Eu, na minha pressa, atravesso o sinal maluco nunca aberto ao pedestre mirando a sombra e desejando impetuosamente um copo de água gelada. E chego atrasado ao trabalho. Pelo caminho do trabalho, tantas roupas não me vestem.

À noite volto para casa caminhando e... caminhando. A noite é um prazer de verão. Só me faltam braços a mais. Ah, e mais um ventilador.

U.P., 14/12/2010

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Subversivo

Subversivo, adjetivo, qualidade de quem corrompe a lei. Nos anos plúmbeos, caracterizava qualquer pessoa que pensasse e divulgasse suas idéias libertárias, anárquicas, comunistas, amorosas, poéticas, pacifistas, enfim, democráticas. Todos os degredados filhos de Eva.

Como não sou propriamente desse tempo, tempo em que não me ocorriam idéias, penso: será possível ser subversivo ainda? Haverá por que lutar novamente?

Subversivo, adjetivo, qualidade de quem corrompia a lei. Nos anos dourados, caracteriza as pessoas que pensavam e divulgavam idéias libertárias, anárquicas, comunistas, amorosas, poéticas, pacifistas, enfim, democráticas. Todos os degredados filhos de Adão.

Como sou propriamente deste tempo, tempo em que me ocorrem idéias, penso: é possível ser subversivo ainda? Há por que lutar novamente?

Subversivo, adjetivo romântico, qualidade de quem está abaixo do verso. Nos meus anos, caracteriza as pessoas que pensam e vivem um ideal. Todos os amados filhos de deus.

sábado, 20 de novembro de 2010

Consciência incolor

Dia da Consciência Negra. Nunca sei o que dizer desse dia tão simbólico, tampouco desejo fazer uma revisão histórica dos fatos que o produziram. De uma coisa estou certo: ainda falta muito para que Alagoas reconheça seu lugar na história do Mundo, isso mesmo do Mundo, a partir da história da resistência quilombola. E a Terra da Liberdade, então... uma lástima. Ano passado defini isto como Consciência obscura.

Eu, fruto da miscigenação, meio litorâneo, meio sertanejo, quando me perguntam a respeito da minha cor de pele, não hesito: "Negro". Nada de moreno. "Ah, mas sua mãe é branca", dizem alguns mais próximos. Aí eu reafirmo, "sou negro". Trago isso porque ser negro é bem mais que uma questão de cor, pois é uma questão de identidade, bem mais forte que as circunstâncias "limitadoras".

Não quero demonstrar com minha experiência que sou um modelo. Somente desejo expressar minha indignação à uma parte da sociedade que ultraja sua história, sendo os detentores do poder público os mais responsáveis por isso. Grandes poderes trazem grandes responsabilidades, como diria o Homem-Aranha.

Bem, nós temos aqui um herói de verdade, com uma história construída por fatos, cuja manifestação sintetiza-se na figura de Zumbi dos Palmares. Não é a história de um homem, mas de uma nação formada por vários povos oriundos da Mãe África.

Mais que transformar nossa terra num roteiro turístico, o maior desafio é torná-la de fato uma terra livre novamente. Afinal, não foi aqui que nasceu a liberdade? Ou teria sido a libertinagem? Que ao menos ensinemos nossos meninos e meninas que a negritude, nossa identidade, está além de desfiles, teatrinhos, movimentos sem emoção ou uma data. Que a religião negra não é macumba pra fazer mal a alguém nem coisa do demônio e, sim, uma forma diferente de louvar o transcendental. Enfim, que a diferença não significa inferioridade ou superioridade. Por isso, só quero uma coisa hoje e sempre: respeito.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Ainda sonolento

Enquanto eu sigo nesta laboriosa empreitada de adaptação ao mundo mais selvagem, eu reclamo: quanto barulho nesta terra! Pra que tanta música (de péssima qualidade) no ar? Se ao menos o ócio aqui fosse produtivo... está mais para reprodutivo, isso sim.

Eu sigo me acostumando, desconjuntado, malamaiado diante dessa nova realidade. Há coisas que só percebo agora: o inverno daqui é ótimo, assim como o silêncio é caro e distante. Outras coisas compensam: certas belezas, certos confortos que antes não eram tão cotidianos.

Os amigos são minha cama, meu repouso, meu alento. Sempre. Por eles o novo far-se-á velho, embora eu não deseje mais voltar ao que nem pode ser chamado mais disso ou daquilo.

Aqui tem uma coisa muito boa: a Lua parece mais próxima.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Levemente acordado

Há um bom tempo e eu ainda não me acostumei com a Terra da Liberdade plenamente. Prossigo gozando de algumas comodidades. Principalmente de ter os amigos por perto e caminhar até o trabalho. Acordo e não há muito o que fazer, aliás, haverá doravante.

Não é nada interessante para mim ver uma paisagem de cimento todo dia. Eu preciso do rio. Eu preciso, na verdade, de tanta coisa que agora não consigo lembrar. União dos Palmares é tão grande... Surgem oportunidades, circunstâncias que não me deixam estagnado e com isso eu vou ressurgindo. O passado pouco se faz presente e por isso raramente eu me religo a ele.

Nesse mês superado aconteceu muita coisa, uma delas ficará marcada no meu corpo para sempre. Bom? Ótimo? Inefável. Senti-me um sol.

Para continuar esta crônica incoerente, ontem acordei feliz de saber que o Brasil, embora ainda ultrajante, continuará menos ruim com Dilma lá. Na verdade, é isto o que eu espero. Convenci-me de que Lula, o mito, foi menos ruim que o FHC. Na verdade, outra vez, de todos os partidos políticos que estão aí o mais imprestável que há é o PSDB. Vide o caso alagoano: muito cimento e pouco serviço. Enfim, tomara que a figura de uma mulher na presidência seja tão simbólica quanto a do operário.

Pode não parecer, mas estou otimista, não quanto ao futuro do país, quanto a mim mesmo, pessoalmente. Faz tempo que não me sinto tão bem. Só preciso agora de férias.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Eu, Policarpo avesso

Estamos no auge de um momento político. Não consegui escrever nada sobre isso antes porque me faltava um paralelo, não necessariamente exclusivo, mas que me apetecesse. Então, quanto mais próximo da eminência do processo eleitoral, mais eu me sinto Policarpo Quaresma na prisão. Nossa pátria angustia, envergonha qualquer pessoa com o mínimo de sentimento. O que esperar de um país tão rico com tantas pessoas analfabetas, que nunca lerão Lima Barreto ou o letreiro da padaria?

Ouve-se um palavrório caótico de candidatos volúveis, suscetíveis às conveniências, ao comodismo e o pior, sem propostas reais. Melhorar isso ou aquilo não é proposta. Ou estou enganado? Atacar a honra, as idiossincrasias alheias, isto é propor? Acredito que ainda não caduquei, e mesmo quando isso acontecer estarei preocupado com assuntos altaneiros.

Gostaria muito de ter a determinação do Policarpo, sua paixão ufanista pelo Brasil, mas não consigo. Sou pessimista quanto ao futuro. O que não quer dizer que me esquivo do debate político nem da atuação política. Sou um Quaresma às avessas, comedido, ciente de que a minha pátria me ultraja. Talvez nem tão pessimista, mas realista.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Levemente adormecido

Levanto-me pela manhã e indago: "Ainda não acordei?!". Sim, porque tudo ainda é novo e estou descobrindo os caminhos. Trafego por aí sem conhecer os rostos, mudo. Estranhos, eu e essa nova realidade. Por vezes sufocado, por vezes livre, são sensações muito díspares que o cotidiano novíssimo apresenta. Preencho meus dias com poucas coisas, mas demandam tempo e meu tempo se esvai no liquidificador do tédio. Mesmo assim, está tudo bem.

Sigo sem me lamentar, pensando tanto quanto antes. Quando eu me acostumar, talvez organize melhor meu tempo e tenha tempo para gastar em outras eventualidades. Por enquanto meu campo de repouso é o Rock'n Roll cantado em coro com os amigos, os Cavaleiros do Apocalipse, a turma etílica-filosófica.

Bem, amor... paciência. Paciência, pois cheguei agora. No entanto, não me deixes. Acordarei em breve.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Gemidos bossanovenses

Eu, hoje, muito mais fã de Raul do que outrora, venho corroborar veementemente com o que ele prega ao longo do seu repertório maluco: a Bossa Nova é realmente um coliforme fecal. Poucas imagens são tão piegas e terríveis quanto a de João Gilberto sentado num banco, dedilhando o violão e sussurrando palavras rimadas com muito esmero. Aliás, ninguém canta na Bossa Nova, solta-se uns gemidos e está bom demais, primazia pura para intelectuais e gente bem posicionada na cadeia alimentar.

Mas assim como o Maluco Beleza tinha uma queda pelo bregão da era do rádio, aceito a Bossa Nova com ressalvas por conta de uma única figura, talvez haja outro de quem não lembro agora, figura ilustre a quem esse movimento musical deve impagavelmente, nosso indefectível Vinícius de Morais. Se você encontrar alguém mais boêmio e sabedor da alma humana do que ele, avise-me. O imenso poetinha simplesmente implantou poesia onde só havia até então cantigas de amor rimadas (nem vou dizer ritmadas, pois daquele tempo nossa cultura musical herdou mais o que não fazer). Ele, sim, revolucionou. E vestido diplomaticamente num fato (olá, Portugal!) no início da carreira como músico. Foi o primeiro engomado a subir num palco pagão no Brasil. O melhor de tudo, porém, era que em Vinícius, mesmo falando de amor, não existia essa pieguice emo dos nossos dolorosos dias. Basta-lhe o amor como humanamente é.

Se você gosta de Bossa Nova, que bom! Você não tem mau gosto. Ela é menos perigosa que Calypso, Aviões do Forró e companhia. Bossa Nova é música de ninar menino malvado. É um movimento sem causas, sem pretensões dimensionadas a reflexão. Ai de nós se ficássemos nela! Ai de nós se não fosse Luiz Gonzaga, o Tropicalismo, o Rock, o Manguebeat! Estaríamos até hoje nos embriagando às margens do rio Mundaú imaginando que elas são na verdade a praia do Leblon.

domingo, 20 de junho de 2010

Recomeçar

Dessa sexta-feira, 18 de junho, em diante estarei sofrendo muito. Eu e minha família fomos vítimas da fúria das águas revoltadas. Revoltadas porque nossa culpa ocupar e destruir o leito dos rios. Resumindo, minha família e dezenas de outras de Branquinha-AL perdemos tudo o que tínhamos, alguns até a vida. Isto nos sobrou mais a força de formiguinha para recomeçar. E como é triste, quantas lágrimas salgaram o lamaçal, molharam os escombros. Os músculos ainda estão doloridos por conta dos esforços inúteis para salvar os objetos de casa. Perdi metade do que vivi até hoje, pois o rio levou contos, poesias e muitos outros escritos guardados com muito cuidado ao longo de mais de quinze anos de amor à palavra. Meus livros tão queridos desceram. Tomara que alguém os leia, assim sairei do anonimato. Porém, a vida, agora mais curta, prossegue. Agradeço... a Deus, força estranha que nos impeliu? ao racionalismo, força estranha que nos repeliu? Não sei, apenas sou grato por minha família e amigos muito amados estarem vivos e tomando decisões para reconstruir. Como diz o ditado popular, só não tem jeito pra morte.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Futebol

Fui infectado em 1994 por essa coisa de futebol. Eu ligava a TV a qualquer hora e só aparecia notícia referente à Copa do Mundo de Futebol, pra mim que quase desconhecia a palavra futebol, só passava "coisa de jogo, ôr!". Vem o primeiro jogo da seleção brasileira, o primeiro gol e um carnaval junino. Bombas, gritos, muita cerveja. Aquilo era bom. E tinha Romário e Bebeto lá arrasando os adversários, fazendo milagres, enfim, a melhor dupla de ataque que já vi jogar. Porque, lembrem, futebol apareceu pra mim naquela Copa.

Também não estava nem aí pra time algum, até aparecer o Flamengo de alguma forma que não recordo, mas com certeza foi influência de grandes e sábios amigos.

Brasil tetracampeão. Uma alegria! Meu irmão e um primo nosso foram pintados de verde e amarelo no dia da final. Eu corria gritando pelas ruas com uma camisa da seleção comprada na feira, grande demais, pois era do meu pai.

Aí veio 1998, grandes expectativas e uma enorme decepção. Eu torcia fanaticamente pelo Ronaldinho. Revoltei-me com o corte do Romário. Não vi o segundo tempo da final contra a França.

Seleção virou motivo de ódio. Nas eliminatórias pra 2002, só pesadelo. Chegou Felipe Scolari, mudou tudo, deu moral pro time e fomos mais uma vez campeões, com gols do Ronaldinho e jogadas lindíssimas de Rivaldo, que foi o Cara em 2002.

2006... deixa pra lá, foi trágico, revoltante. Não lembro de outros jogadores além de Zé Roberto e Robinho chorando, após mais um show de Zidane, dessa vez visto com admiração.

Nesses 16 anos de convivência quis muitas vezes ser indiferente ao futebol. Somente as alegrias estaduais do Flamengo não bastavam e ainda tinha de aturar meu time anos seguidos à beira do rebaixamento. Aí veio 2009. Flamengo hexacampeão brasileiro! Comprei até camisa nesse ano.

2010. Se me perguntassem o que eu gostaria de ver este ano em termos de futebol, seria sem dúvida o hepta do Mengão. Torcer por uma seleção mais estrangeira que brasileira, retranqueira, feia, sem um o Cara, não tem a menor graça. Seria uma boa se a Argentina ganhasse, ao menos o Maradona é mais engraçado que o Zangado. Embora eu torça pelo Brazil, na verdade, por um brasileiro em particular, Julio Cesar, grande rubro-negro. Mais ainda pelo sucesso da África do Sul como país sede.

É isso, essa é a seleção mais estranha que já vi. Desde quando os maiores ídolos de um time fazem parte da zaga? Estranho... Ah, tem o Kaká, que anda com as pernas bambas ultimamente. Mesmo assim, pra frente Brazil! Afinal, se formos campeões, provavelmente será feriado no dia 12 de julho.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Terrorismos

Não é coisa atual a humanidade produzir assassinatos. Desde tempos remotos, a sobrevivência dos grupos humanos esteve de algum modo relacionada à competição com outros grupos. Daí as guerras. A evolução nos presenteou com maravilhas da racionalidade. Porém, há problemas que parecem indissolúveis, como os embates étnicos. Para ficar num exemplo, alguém consegue lembrar de quando começou essa peleja de cristãos x muçulmanos x judeus (quer dizer, todos contra o Islã)?


Após o fim do Império Romano, o Cristianismo alçou o posto de religião oficial e passou a perseguir as demais como sofrera antes. Com as Cruzadas, o conflito com os povos árabes para conquistar a Terra Santa transformou-se numa guerra interminável e insana. O Ocidente chama os ataques dos muçulmanos de “terrorismo”, devido ao uso de táticas nada convencionais: homens-bomba explodindo em lugares públicos, seqüestro de aviões para impactá-los contra arranha-céus, guerrilhas. No geral, esses “terroristas” não dispõem de capital suficiente para adquirir tanques, caças, fuzis etc., ou seja, um aparato bélico como o daquelas nações que tentam combatê-los. Por isso, essas táticas de “baixo custo”, cujo objetivo é provocar o maior dano possível. Mas... bem, quantas vidas são tiradas a cada míssil disparado de um caça supersônico? Quantos morreram na explosão da bomba atômica?


Esse “terrorismo”, diz a mídia, muitas vezes é promovido por facções religiosas radicais ou políticas, cujos intuitos podem ir da sutil diferença de interpretação do livro sagrado a tomada de territórios (muitos deles ricos em petróleo, minerais raros), a cor da pele, casta, tribo. Mesmo com tanta racionalidade fica difícil entender uma guerra onde nem é mais necessário saber por que se luta. Em nome da religião? Da democracia? Da liberdade? Da terra?


Hoje, os jornais precisam reparar bem no que publicam sobre algumas religiões, nações, políticos, seitas, pois, em alguns lugares, isso pode ser motivo para uma retaliação. (Os terroristas não perdoam). Embora, muitas vezes esses mesmos jornais se “confundam” sobre quem, na verdade, está espalhando o terror. A lógica tribal é a da eliminação total do inimigo, e é a lógica dos conflitos atuais, onde terrorismo é combatido com terrorismo (dependendo de quem, bastante avançado tecnologicamente). O saldo final: mortes, mortes, mortes de crianças, de inocentes, de pessoas que só desejam o fim da guerra para viver em Paz. Por isso, não cabe apontar os terroristas, uma vez que todos que promovem guerras o são.


José Minervino Neto

Branquinha, 07/03/2009

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Novos dias (2)


Enfim, volto a escrever pra dizer apenas que os dias estão sendo generosos. Mas quero alongar-me mais um pouquinho.

Dias bons são desconfiáveis, na maioria das vezes. Como há muito tempo não sei bem o que isso de dia bom é, eu não consigo entender por completo. Isto sei que é insegurança. Desconfiar faz parte, ainda mais após uma longa temporada de tédio.

O fato é que está tudo indo tão bem que à desconfiança junta-se o medo. Até as expectativas se confirmarem, viverei esse dilema. Deixa ser.

Por outro lado, fugindo às minhas idiossincrasias mais íntimas, fico cada vez mais perplexo diante do mundo. Como pode ocorrer tudo isso aí? E como são fracas as utopias! O mundo desmunda-se celeremente. Eu, doido, doído, tento acompanhar na contramão.

Ainda acredito no amor.

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Imagem: Meeting by morganY, in CGHUB

terça-feira, 27 de abril de 2010

Lugares


Ouvi, há um bom tempo, que existe uma diferença enorme entre ser de um lugar e morar num lugar. Sazonalmente, expresso aqui minha relação com certos lugares, grosso modo, o sertão e o litoral, os quais conheço não em profundidade, mas em qualidade devido aos momentos que passei em ambos. Gosto de chamá-los de paraísos.

Moro num lugar e vivo em outro, como falei na postagem anterior. De certo modo, o mesmo lugar, o que me faz procurar refúgios dada as circunstâncias históricas que diferem os dois apenas em dimensões numérico-espaciais. Por ser um matuto rebelde, trafego pelos grupos e tribos com certa maleabilidade e eficiência, com temperança e muita observação. Afinal, o lugar que ocupam são mutuamente diversos, até contraditórios. Mas me dou bem. Porque estou entre amigos. Pois são os amigos os melhores lugares. Por causa deles os lugares são especiais. Portanto, moro num lugar, porém sou dos meus amigos.

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Imagem: The Journey Ends by andreasrocha, in CGHUB

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Novos dias

Ando sem muito tempo e inspiração para postar algo relevante, pelo menos na minha escala. Hoje cumpri de fato meu primeiro dia de expediente como burocrata estadual. Nivelando por baixo, uma pequena libertação. Ontem, quase bati o carro da família recém comprado, quase fui preso, quase, mas ninguém morreu nem se feriu. Novos dias doravante, que espero sejam mais lúdicos, tranquilos. Praticamente morarei num lugar e dormirei em outro. Que haja tempo para a poesia.

Aos poucos volto a respirar e mais importante: emerge uma pontinha de esperança. Ela pode aparecer...

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Ilustração: The Captive by TARGETE, in CGHUB

terça-feira, 30 de março de 2010

À Terra Santa na semana santa

Esta imagem é apenas um exemplo do que pode ser encontrado no site cghub.com, onde artistas expõem seus trabalhos. Mas não é à toa que ela está aí.

Depois de um mês muito estressante, preciso de um repouso, aconchegante, ar fresco e um perfume fraquinho. Vou à Terra Santa nesta semana santa, beber vinho e o que mais for conveniente à sede. E vou sentir o cheiro de caatinga molhada, e, se encontrar, esperar o tempo passar debaixo duma flor. Somente uma existência assim me trará o conforto esperado.

"Não há oh gente oh não..."

domingo, 21 de março de 2010

Literatura de criança?

Sazonalmente trago para este espaço reflexões de caráter conceitual das coisas que mais ocupam minha mente. E literatura já me é. Leio pouco, tento porém cadenciar a leitura com boas notas. Vasculho as estantes de livros sempre, primeiro, à procura de clássicos e deparo-me com outros títulos interessantes, não-clássicos, que parecem magnetizados. Hipnotizam-me: "Leia-me!". Isso vem acontecendo com muita frequência com um tipo de livro específico, aqueles da literatura infanto-juvenil.

Essa literatura feita ou não, pensada ou não para uma faixa etária tem causado um alvoroço nos meus ânimos leiturísticos. O universo fabuloso, mágico, lúdico e encantador de livros como O menino do dedo verde (Maurice Druon), O visconde partido ao meio (Italo Calvino), por exemplo, fizeram-me negligenciar a leitura de O memorial do Convento, do José Saramago, por sinal um livro que dialoga com o mesmo imaginário, apesar de ser uma recontagem de fatos históricos documentados.

Fui impactado por uma pequena avalanche de boas risadas e grandes reflexões metafísicas. Tistu, o menino do dedo verde que faz tudo florescer, acaba com uma guerra e faz as pessoas felizes, não se conforma com o mundo tal como é, e transforma a cidade de Mirapólvora em Miraflores. O visconde Medardo di Terralba, por sua vez, vai à guerra e volta dividido de norte a sul em uma parte boa e outra má, ambas cometendo absurdos e nos mostrando o quanto o equílibrio é importante. Entre cenas hilárias, percebemos que a incompletude que nos assalta não pode ser resolvida apenas numa parte, tem de haver o todo.

E assim vou renegando de forma contumaz a má impressão que muitos têm de que a categoria infanto-juvenil é dispensável aos adultos, que serve apenas para instigar o gosto pela leitura nas nossas crianças. Não, não. Há poesia lá, não pode ser inferiorizada. Obviamente uma criança demorará um bocado para entender as entrelinhas. Mas entenderá.

Enfim, é tudo literatura, aliás, boa literatura. O Pequeno Príncipe, do magnífico Antoine de Saint-Exupéry, por si só já é um grande e sólido argumento.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Sobre A Metamorfose, de Franz Kafka


Fechei o livro e indaguei-me se ele teria sido feito para ser odiado, pois senti algo parecido durante a leitura. Como pode isso? Como aquilo? Eram frequentes. Quase desisti de ler, mas pela parcimônia no número de folhas, prossegui. E não me arrependi. Sim, porque A Metamorfose é um tipo de novela intrigante, porém contundente, onde Franz Kafka nos faz sentir nojo de nós mesmos.

Quantas obras literárias não tratam da mesma coisa? Muitas em muitos lugares do mundo refletem acerca da hipocrisia humana, talvez nenhuma trate da desumanização tal qual a obra de Kafka. Agora entendo as loas à sua magnificência literária.

Não irei contar os detalhes do enredo. Leiam o livro! É moderno e imprevisível. Adianto apenas que o personagem principal não se transforma numa barata. Portanto, meninas, tranquilizem-se, nenhum inseto saltará das páginas (só o inverso pode acontecer).

Do gênero humano, às vezes não se nota que dele se pode esperar qualquer coisa possível aos seus meandros. Literatura não é um divã, tampouco um oráculo dos deuses. O que está lá veio de fora. E, odiando ou não o que alguém como Franz Kafka escreve, é isso o que se vê pela "janela da alma" cotidianamente. Humanos bons, humanos maus, as duas coisas num só corpo e mente. Ler um livro ao menos nos permite sondar as entranhas do humano sem graves consequências.

E é o que dizem, não se pode mudar o mundo sozinho. Mas o sozinho pode se metamorfosear. E, sim, A Metamorfose é um ótimo livro apesar de tudo. Eu só odeio o que Kafka, suponho, também odiaria.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Só ano que vem

Carnaval só ano que vem. Onde ouvi isso? Todo ano tem, todo ano acaba. Por mim, duraria um pouco mais. Ao invés de uma Quarta-feira de Cinzas, não seria melhor uma Segunda-feira? Nisto muitos concordariam. Até aqueles que não gostam do Carnaval, haveria mais tempo para o "nadar" deles.

Pois é, ele veio, ele foi. Durante quatro dias eu trouxe aquilo que prometi: não boas fotos de Japaratinga e Porto de Pedras por onde perambulei, mas ótimas histórias, sim, que não contarei aqui ao menos que haja um clamor muito forte do público fiel deste blog em prol disto.

Minha cara está queimada, até ontem os ossos estavam doloridos e a vontade de permanecer em casa até segunda-feira, ávida. Esta é uma ressaca que não se cura com água de coco. O quero-mais permanece, gera novas expectativas. Nesse momento, olho para o meu amigo Whasley e indago: "Quando será a próxima aventura?"

Carnaval só ano que vem, a próxima aventura, a qualquer instante. No intervalo entre uma coisa e outra, vou suportando a realidade.

Ah...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Paraíso Nº 2

Alguns lugares são apenas bonitos, deslumbrantes. Guarda-se boas recordações e fotografias (nem tão boas na maioria das vezes). Outros lugares nem são tão bonitos assim, no entanto afetam nossos sentimentos de tal modo que se tornam verdadeiros paraísos. O sertão pra mim é. Basta-me uma lembrança qualquer para me deportar para lá em sonho. Os amigos que tenho, as minhas raízes genealógicas fazem-no o Paraíso Nº 1.

Outros ainda, associam beleza, aventura, amizade e tantas coisas que mesmo depois de voltar lá amiúde (ê, Zé Ramalho!) é como se fosse a primeira vez (ô, clichê desnecessário!). Japaratinga pra mim é. Paraíso, sim.

Estarei em Japaratinga novamente. Talvez não traga boas nem más fotos, esforçar-me-ei pelo melhor. Ótimas histórias, certamente.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Despertencimento

Eu pensava que iria me divertir como na última noite. Botei uma roupa legal, meu sapato mais bonito, perfume de marca reconhecida que ganhei num amigo secreto. Saí na companhia de meu irmão, que carregava orgulhosamente uma garrafa de destilado caríssimo, incompatível com nossos honorários.

Naquela noite, eu bebi muitas cervejas e doses de sei lá o quê que me deram. No outro dia, ressaca terrível, contudo alma satisfeita. Esta noite não correspondeu às minhas expectativas. Acabou o destilado e, assim como a garrafa, esvaziei-me. Tomei a água com gás que tanto recomendou-me minha tia orgulho da família no quesito beleza a fazer todas as vezes em que consumisse tal bebida.

Música ruim rolando, um monte de pessoas conhecidas e, portanto, mais desconhecidas do que as desconhecidas. Não suportei estar lúcido naquele ambiente. Porque o destilado de que falo tem esse poder de embriagar-me sem me amalucar, como o vinho. Ainda bem que não sentiram minha falta, pois não conseguiria dar outra resposta pela ausência senão "não sei". Agora, eu sei o porquê, claro. Senti-me despertencente àquele lugar, àquelas pessoas.

Entendo a embriaguez contínua de Vinícius de Moraes enfim. Para suportar tanta futilidade e tédio, no meu caso, somente estando fora de si. É incrível a incompatibilidade de interesses entre mim e meus conterrâneos. Por isso tenho tão poucos amigos por aqui. Presumo até o tipo de comentários que destilam sobre mim, pena que não é whisky.

Esforço-me para aproveitar ao máximo as festas populares da terrinha, a combater o tédio. Entretanto, a garrafa sempre termina vazia. E eu também.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Carlos Latuff sobre a revisão da Lei de Anistia

Punidos e impunes da Anistia

Com todo esse burburinho sobre a revisão da Lei de Anistia prevista no Programa Nacional de Direitos Humanos, um discurso tem sido frequente. Que se deva apurar os crimes cometidos de ambos os lados durante o regime militar, tanto dos militantes de esquerda quanto das forças de repressão.

O que a primeira vista pode parecer uma posição de aparente equilíbrio, traz na verdade um conceito reacionário, de que a resistência armada a um regime de exceção seja vista como crime (criminalização).

Não nos esqueçamos de que os militantes de esquerda que lutaram contra a ditadura militar no Brasil já tiveram punição suficiente. Foram presos, cassados, implacavelmente torturados, executados, desaparecidos. Já seus carrascos, sem nenhum arranhão, escaparam tranquilos da Justiça, indo se refugiar nos braços da Lei de Anistia, inclusive reverenciados pelos seus atuais colegas de farda nos clubes militares da vida.

Levar ao banco dos réus ex-militantes que pegaram em armas para enfrentar fascistas no Brasil seria tão absurdo quanto julgar os partisans pelos atentados cometidos contra militares alemães durante a ocupação da França na Segunda Guerra Mundial. É confundir, maliciosamente, vítimas com algozes...mais uma vez.

Por isso, meus caros internautas, eu lhes trago este checklist, para que possam imprimir em papel cartão, num tamanho que caiba no bolso ou dentro da carteira. Quando o assunto for revisão da Lei de Anistia e alguém lhe disser que "ambos os lados devam ser punidos", mostre essa charge, só como um lembrete de mais essa verdade inconveniente.

Carlos Latuff*

Link: http://latuff2.deviantart.com/art/Punidos-e-impunes-da-Anistia-150024725

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*Cartunista carioca, dedica sua arte a denunciar as mazelas da sociedade contemporânea e, especialmente, em apoio à causa palestina. Um homem, como se vê, extremamente sóbrio em mar etílico.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Interrogação


Enquanto eu espero que o ano novo me traga algo de novo, fica a interrogação. Desconjuntado, entediado. Sem forças para escrever mais do que três linhas. Pronto, acabou.