Passamos despercebidos aos olhos da multidão com nossos trajes semelhantes, com nosso silêncio. Também não notamos nos outros, a não ser que estejamos movidos por uma curiosidade bizarra de descobrir quem são só de olhar. A menina do caixa, mesmo que sorrindo, esquecerá nossos semblantes em pouco tempo, por isso se há algo errado voltemos logo lá. Você lembra a cara do rapaz que nos entregou um folheto? Todos os dias, na rotina diária, trafegamos as mesmas ruas. Ainda assim, deixamos algo. Você se recorda de alguns colegas de classe com os quais pouco ou nenhuma vez conversamos? Eu também não.
Na verdade, é tudo mentira. Há sempre alguém que nos nota do mesmo modo que o notamos. Desacostumamos com o fato de que os outros são como nós. Sim, lembramos, percebemos e ignoramos tudo isso, para mantermos nosso patamar de orgulho e individualismo sempre alto.
Eu sou egoísta, repito neste espaço mais uma vez. No entanto, não o sou somente pela paixão de ser, fui me configurando a esta forma. Pergunto-me quanto de mim sou eu mesmo. No geral, as pessoas são o que as outras são. Bichos paradoxais.
Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque no começo desta década, eu reescrevia as notícias da guerra em uma agenda. Não demorou muito, desisti. Cansei logo de indignar-me sem ter como fazer algo imediato por aquele povo que sofre até hoje em nome da loucura desse Bush, que termina seu mandato no próximo dia 20 de janeiro.
Estamos assistindo em tempo real uma nova velha guerra entre Israel e Palestina. Não reescrevi nenhuma matéria, apenas resignei-me a indignação. Um combate injusto, do ponto de vista humano e estrutural bélico, pois são, por exemplo, 520 caças israelenses contra nenhum palestino. Mas, claro, minha indignação é pela morte de tantas pessoas de ambos os lados. Como dizem, nenhuma mãe quer ver seu filho morto, ou melhor, destroçado por um míssil e entregue em pedaços, acompanhado das despesas do funeral.
Não muito patriota, estou longe, anos-luz, do ufanismo. Porém, diante desses acontecimentos, no mínimo, sinto-me seguro aqui na Terra do Nunca 2. É válido relembrar a guerra cotidiana, que alguns chegaram a dizer "não-declarada", com que convivem os cidadãos das grandes cidades deste país. Fico mais saudosista dos tempos que não vivi. Meu remédio é escrever. Placebo.
Tomara que um dia os povos do Oriente Médio possam viver muito mais que acordos falsos, a paz verdadeira.
Não gosto de você Papai-Noel...
Também não gosto desse seu papel
De vender ilusões à burguesia.
Se os garotos humildes da cidade
Soubessem de seu ódio à humildade,
Jogavam pedras nessa fantasia!
Você, talvez, nem se recorde mais,
Cresci depressa e me tornei rapaz
Sem esquecer, no entanto, o que passou...
Fiz-lhe um bilhete pedindo um presente
E a noite inteira eu esperei contente,
Chegou o sol e você não chegou!
Dias depois, meu pobre pai, cansado,
Trouxe um trenzinho feio, enferrujado,
Que me entregou com certa hesitação.
Fechou os olhos e balbuciou:
- É prá você... Papai Noel mandou -
E se esquivou contendo a emoção!
Alegre e inocente, nesse caso
Pensei que o meu bilhete com atraso
Chegara às suas mãos no fim do mês.
Limpei o trem, dei corda, ele partiu,
Deu muitas voltas e meu pai sorriu
E me abraçou pela última vez!
O restou só eu pude compreender
Quando cresci e comecei a ver
Todas as coisas com realidade.
Meu pai chegou um dia e disse a medo:
- Onde é que está aquele seu brinquedo?
Eu vou trocar por outro na cidade –
Dei-lhe o trenzinho, quase a soluçar
E como quem não quer abandonar
Um mimo que lhe deu quem lhe quer bem
Disse medroso: - Eu só queria ele...
Não quero outro brinquedo...quero aquele...
E por favor não vá levar meu trem –
Meu pai calou-se e pelo rosto veio
Descendo um pranto que eu ainda creio,
Tão puro e santo, só Jesus chorou.
Bateu a porta com muito ruído,
Mamãe gritou, ele não ouvidos,
Saiu correndo e nunca mais voltou!
Você, Papai Noel me transformou
Num homem que a infância arruinou,
Sem pai e sem brinquedos. Afinal,
Dos seus presentes, não há um que sobre
Para a riqueza do menino pobre
Que sonha o ano inteiro com o Natal!!
Meu pobre pai, doente, mal vestido,
Prá não me ver assim desiludido
Comprou por qualquer preço uma ilusão...
Num gesto nobre, humano, decisivo,
Foi longe prá trazer-me um lenitivo,
Roubando o trem do filho do patrão!
Pensei que viajara, no entanto,
Depois de grande, minha mãe em pranto
Contou que fora preso. E como réu,
Ninguém a absolvê-lo se atrevia.
Foi definhando até que Deus um dia
Entrou na cela e o libertou pro Céu!
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Conheci este texto num momento mágico, quando o querido Professor Julião Marques o declamou perante minha saudosa turma do 2º ano de História-UFAL, lá nos idos de 2004. Isso mudou toda a minha concepção de Natal, desde então para mim uma coisa feia e repleta de hipocrisia. Não sou comunista/marxista, mas isso é uma invenção burguesa de mal gosto.
O título do poema é meio duvidoso, pois encontrei-o com outros, sempre dando os créditos ao Aldemar Paiva. Estou confiante nas palavras desse cara legal aqui: http://www.bodega.blog.br/nareal/monologo-de-natal/; inclusive postei um comentário perguntando-lhe sobre essa questão, está tudo lá.
Enfim, desejo dias bons a todos. Afinal, é disso que precisamos...