terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Nossa história


Ninguém foge à história. Somos parte dela, produzimo-la constantemente e somos por ela produzidos. Nosso anonimato junta-se ao anonimato de outros e assim compomos as massas que fazem o motor funcionar, silenciosamente.

Pensar sobre nós mesmos é uma atitude filosófica que envolve o esquadrinhamento de nossas raízes. Quem éramos antes de existirmos é o que nos faz, de algum modo, ser o que somos hoje.

O mais fascinante na história é que não há meio de conduzi-la. Por mais que se tente, ela sempre nos surpreende.

Muitas vezes intentamos mudar o mundo, e mudamos, mas não o fizemos como realmente queríamos. Por conta disso, o ar que respiramos está impregnado de odores seculares da labuta de pessoas que construíram os alicerces nos quais erguemos nossas histórias...

Mas há sangue por toda a parte e exploração... e miséria, e desgovernos, e pranto...

Precisamos mudar novamente... ou acabar de vez com a história.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Um delicioso conto de Drummond


Retirado integralmente do livro "Contos plausíveis", 5ª edição, publicado pela Editora Didática Paulista e Record, em 2002.

A incapacidade de ser verdadeiro

Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas.

A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.

Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:

- Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.

(Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 22 de novembro de 2008

Letras X números

Que angústia! Por que eu não me apeguei aos números invés das letras? Hoje, graduado em alguma área das exatas, caso fosse um licenciado, seria professor dos mais cobiçados, ou bacharel muito talentoso. Mas preferi as letras, e por mais descapitalizado que eu seja por conta disso, ainda que angustiado, não me arrependo. Se eu conseguir viver o suficiente para ter grandes amores e curtir grandes aventuras, já terá valido a pena. Aliás, como já fiz um pouco de cada, com mais um pouco não morrerei frustrado.

Se eu fosse dos números, decerto seria um bruto que não vê beleza numa flor, nem num gesto doce. Dificilmente eu gostaria das músicas que gosto e me valeria de qualquer uma para refletir sobre minha vida. Jamais teria lido os livros que li e releio vez em quando. Sonharia com fórmulas matemáticas e usaria uma linguagem difusa e com o mínimo de lógica aos não-iniciados. Talvez sequer parasse para ver um quadro, embora eu ressalte aqui que não costumo absorver nem dizer muito dos que observo.

É verdade que nem todos das exatas são assim. Conheço camaradas que são pessoas normais apesar de viverem pensando em números. Eu que seria o avesso de mim. Não é a realidade que eu estou descrevendo.

Ah, eu poderia estar num centro de pesquisa agora comendo frituras, engordando, meio cego e ganhando muito dinheiro com pouco tempo para gastá-lo. Ganharia um prêmio, tornar-me-ia famoso e o presidente da república condecorar-me-ia com a honra ao mérito. Um pouco mais de empenho levar-me-ia à Lua.

Eu desprezei os números em favor das letras, e sou inacreditavelmente feliz. Remorsos, nenhum. Eu só gostaria de ganhar mais dinheiro sem precisar reservar tempo demais ao trabalho. Dinheiro, todos o querem sempre mais.

Pensando melhor, deve haver um modo de ser feliz com pouco dinheiro. E se eu fosse tudo o que não sou como seria?

Eu seria mais fudido do que eu sou.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Estoicismo à Saramago


Tive o prazer de encontrar estas palavras. Gostaria de tê-las dito. Aqui as reproduzo integralmente do blog do José Saramago, cujo link está ali à direita. Eu, como o distinto português, de modo algum sei conviver com a indiferença. Apesar de usá-la, forçosamente, em nome da minha conveniência em alguns momentos.

Eis o texto de Saramago:

Vivo, vivíssimo

Intento ser, à minha maneira, um estóico prático, mas a indiferença como condição de felicidade nunca teve lugar na minha vida, e se é certo que procuro obstinadamente o sossego do espírito, certo é também que não me libertei nem pretendo libertar-me das paixões. Trato de habituar-me sem excessivo dramatismo à ideia de que o corpo não só é finível, como de certo modo é já, em cada momento, finito. Que importância tem isso, porém, se cada gesto, cada palavra, cada emoção são capazes de negar, também em cada momento, essa finitude? Em verdade, sinto-me vivo, vivíssimo, quando, por uma razão ou por outra, tenho de falar da morte…