terça-feira, 27 de abril de 2010

Lugares


Ouvi, há um bom tempo, que existe uma diferença enorme entre ser de um lugar e morar num lugar. Sazonalmente, expresso aqui minha relação com certos lugares, grosso modo, o sertão e o litoral, os quais conheço não em profundidade, mas em qualidade devido aos momentos que passei em ambos. Gosto de chamá-los de paraísos.

Moro num lugar e vivo em outro, como falei na postagem anterior. De certo modo, o mesmo lugar, o que me faz procurar refúgios dada as circunstâncias históricas que diferem os dois apenas em dimensões numérico-espaciais. Por ser um matuto rebelde, trafego pelos grupos e tribos com certa maleabilidade e eficiência, com temperança e muita observação. Afinal, o lugar que ocupam são mutuamente diversos, até contraditórios. Mas me dou bem. Porque estou entre amigos. Pois são os amigos os melhores lugares. Por causa deles os lugares são especiais. Portanto, moro num lugar, porém sou dos meus amigos.

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Imagem: The Journey Ends by andreasrocha, in CGHUB

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Novos dias

Ando sem muito tempo e inspiração para postar algo relevante, pelo menos na minha escala. Hoje cumpri de fato meu primeiro dia de expediente como burocrata estadual. Nivelando por baixo, uma pequena libertação. Ontem, quase bati o carro da família recém comprado, quase fui preso, quase, mas ninguém morreu nem se feriu. Novos dias doravante, que espero sejam mais lúdicos, tranquilos. Praticamente morarei num lugar e dormirei em outro. Que haja tempo para a poesia.

Aos poucos volto a respirar e mais importante: emerge uma pontinha de esperança. Ela pode aparecer...

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Ilustração: The Captive by TARGETE, in CGHUB

terça-feira, 30 de março de 2010

À Terra Santa na semana santa

Esta imagem é apenas um exemplo do que pode ser encontrado no site cghub.com, onde artistas expõem seus trabalhos. Mas não é à toa que ela está aí.

Depois de um mês muito estressante, preciso de um repouso, aconchegante, ar fresco e um perfume fraquinho. Vou à Terra Santa nesta semana santa, beber vinho e o que mais for conveniente à sede. E vou sentir o cheiro de caatinga molhada, e, se encontrar, esperar o tempo passar debaixo duma flor. Somente uma existência assim me trará o conforto esperado.

"Não há oh gente oh não..."

domingo, 21 de março de 2010

Literatura de criança?

Sazonalmente trago para este espaço reflexões de caráter conceitual das coisas que mais ocupam minha mente. E literatura já me é. Leio pouco, tento porém cadenciar a leitura com boas notas. Vasculho as estantes de livros sempre, primeiro, à procura de clássicos e deparo-me com outros títulos interessantes, não-clássicos, que parecem magnetizados. Hipnotizam-me: "Leia-me!". Isso vem acontecendo com muita frequência com um tipo de livro específico, aqueles da literatura infanto-juvenil.

Essa literatura feita ou não, pensada ou não para uma faixa etária tem causado um alvoroço nos meus ânimos leiturísticos. O universo fabuloso, mágico, lúdico e encantador de livros como O menino do dedo verde (Maurice Druon), O visconde partido ao meio (Italo Calvino), por exemplo, fizeram-me negligenciar a leitura de O memorial do Convento, do José Saramago, por sinal um livro que dialoga com o mesmo imaginário, apesar de ser uma recontagem de fatos históricos documentados.

Fui impactado por uma pequena avalanche de boas risadas e grandes reflexões metafísicas. Tistu, o menino do dedo verde que faz tudo florescer, acaba com uma guerra e faz as pessoas felizes, não se conforma com o mundo tal como é, e transforma a cidade de Mirapólvora em Miraflores. O visconde Medardo di Terralba, por sua vez, vai à guerra e volta dividido de norte a sul em uma parte boa e outra má, ambas cometendo absurdos e nos mostrando o quanto o equílibrio é importante. Entre cenas hilárias, percebemos que a incompletude que nos assalta não pode ser resolvida apenas numa parte, tem de haver o todo.

E assim vou renegando de forma contumaz a má impressão que muitos têm de que a categoria infanto-juvenil é dispensável aos adultos, que serve apenas para instigar o gosto pela leitura nas nossas crianças. Não, não. Há poesia lá, não pode ser inferiorizada. Obviamente uma criança demorará um bocado para entender as entrelinhas. Mas entenderá.

Enfim, é tudo literatura, aliás, boa literatura. O Pequeno Príncipe, do magnífico Antoine de Saint-Exupéry, por si só já é um grande e sólido argumento.