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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

As mãos de Irinéia



Irinéia era a menina que bulia no barro por curiosidade.

Cresceu, casou, veio uma penca de filhos e, após o primeiro casamento, encontrou Antonio, seu "veio" e aprendiz primogênito.

Não se contentava em fazer apenas panelas e cuidar da casa e dos filhos. A curiosidade a persegue por toda a vida, atiça-lhe a criatividade, inquieta suas mãos. Sutis, precisas, a moldar o barro sob o olhar carregado de história.

Antonio deixou de buscar o barro preto no campo verde para sentar tijolos (afinal os tempos mudaram...). O barro que ergueu tantos lares no Muquém e redondezas, agora servia a arte de Irinéia e, então, conhecemos uma artista filha do Quilombo dos Palmares.

Com as mãos já cansadas de toda uma vida, mas ainda firmes, Dona Irinéia retrata o mundo, lendo e relendo-o, transformando o barro informe.

Sua técnica é simples. Seus instrumentos, rudimentares e improvisados. A arte, no entanto, evoca ancestralidade, uma expressão livre. Ora bem detalhadas, ora lisas e suavemente arredondadas (seu traço peculiar). Porém, sempre equilibradas e em consonância com a medida do seu olhar e toque.

Criando outro mundo de barro com suas mãos de menina curiosa.

10 de novembro de 2012

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Do outro lado da festa

Agonia e Êxtase é o título de um filme clássico que conta a história de Michelangelo, o gênio renascentista, quando este assumiu a "simples" tarefa de pintar os afrescos da Capela Sistina. Agonia foi o que senti durante os preparativos do Festival Linha de Produção, primeiro evento de música que produzi ao lado dos companheiros do Coletivo A Fábrica: Zema, Thiago, Wenndell e Bruno. E êxtase ao soar o primeiro acorde da primeira banda a se apresentar no palco montado no pátio da escola onde passei boa parte da minha adolescência.

Produzir um evento de rock em União dos Palmares e região ainda causa muito estranhamento por conta da imagem deturpada que associam ao estilo musical. Poucas pessoas se arriscam a investir num projeto tão ambicioso e alternativo às opções de entretenimento corriqueiras. Com muito esforço e uma pitada de sorte conseguimos o patrocínio e o apoio necessários à realização do 1° FLP. Depois veio toda a logística: hospedagem, alimentação, material gráfico, transporte etc.

Ao longo de nossas reuniões jamais perdemos o bom humor e até o refinamos. Era com altas risadas diante das agonias que vislumbrávamos o êxtase. Deu tudo certo, é a palavra final do grupo. Era com muito refrigerante e salgados, também, que almoçávamos. Pesadelos viraram piada e não foram poucos, da minha parte, na reta final. Coisa de operário de primeira obra.

Circunstâncias irremediáveis nos forçaram a cancelar algumas atividades do projeto inicial, outras, de última hora, não diminuíram o tamanho da festa, que não deixou a desejar, dizem aqueles que estiveram lá e registraram o momento. Os comentários nas redes sociais foram gratificantes. E o apoio dos  nossos parceiros do coletivo Popfuzz, com todo seu know how, foi crucial.

Quase dois dias após a festa ainda estamos cansados, mas satisfeitos e já pensando nos ajustes para a próxima edição do FLP. Porque acreditamos no potencial de nossos artistas, nadamos contra a maré do mais do mesmo e apostamos alto na cultura alternativa como um meio de intervenção social, portanto política, para romper paradigmas e construir uma via de liberdade em meio às mazelas.

Aqui registro toda a nossa gratidão às bandas, aos amigos e ao público que compareceram. E aos nossos patrocinadores e apoiadores do projeto. Sem vocês não haveria festa nem beleza.

As mãos vão ficando calejadas, mesmo com luvas, a espinha fortificada de tanto envergar e o corpo se acostuma a ferver sob o uniforme. As engrenagens continuarão a girar, pois vapor não falta.

Festival Linha de Produção: agonia e êxtase. Expediente encerrado.

terça-feira, 1 de maio de 2012

A massificação do ruído


A cultura, em tempos internéticos, tem ampliado seu caráter dinâmico, tantas são as trocas e fácil o acesso. Os bens culturais de massa cruzam os mares dos cabos ópticos e podem ser degustados no seio do lar e copiado para outros suportes que não o computador. 

Não por acaso esse processo de massificação muito assusta os de outrora, ao passo que inebria os de agora e nos faz perguntar o que será doravante. Os de outrora, em grande número bairristas, defendem seu tempo como se nada feito depois fosse bom e, por sua vez, os de agora supervalorizam seus ídolos, muitas vezes sem considerar o início de tudo. Cada um com seu pecado mortal. E como toda regra não é um dogma infalível, há aqueles que transitam inversamente a isso tudo, a saber, os novos que buscam os velhos, e estes que se rendem às (poucas, infelizmente) demonstrações de talento genuíno atuais. Ou seja, não há motivo para tanto receio nem tanta resistência. Ninguém precisa ser um Ariano Suassuna para ser um bom apreciador da arte.

Lamentável que o cinema, a música e a literatura de hoje estejam tão pautados pela superficialidade. O que há com as pessoas que produzem cultura? Culpa do mercado, ditador das regras desse jogo, ou dos consumidores alienados pela mídia? Encontrar algo com densidade artística, para além do discurso, requer esforço de garimpagem e tempo, muito tempo. Um esforço às vezes vão, às vezes impressionante.

Quem foi adolescente na década de 90 presenciou o fim dos bons e o apogeu dos inúteis. Viu programas de televisão, antes tomados pelo pop das bandas de rock, pelos senhores da Tropicália e da música romântica (puro lirismo!) ou de uma vertente mais sofisticada, como a inclassificável obra de Chico Buarque, receberem uma avalanche de axé, sertanejo e pagode. 

A música vinda da Bahia pouco se interessava com a coerência das letras, o importante era a coreografia, o close nas bundas e a galera saindo do chão. A do sudeste pouco reproduzia a expressividade da região e o pagode mais parecia uma câmara de ecos com tantas rimas terminadas em "ar", "er" e "ão". Havia o mínimo, e as pessoas se contentaram com isso a ponto de se satisfazerem com a total ausência de letra e melodia das canções (?) hodiernas.

Creio que as benesses tecnológicas estão sendo mal utilizadas. Como entender a mente de alguém que tem a oportunidade de experimentar as melodias mais belas já compostas e opta pelo ruído repetitivo? Alguém que troca a emoção e o "frio no estômago" dos filmes antigos por coisas toscas tipo os programas de TV? E o mais grave, que intelectualidade nascerá de uma geração que não lê?

Há luzes no fim do túnel, claro, e elas apontam para os subterrâneos dessa sociedade culturalmente entorpecida, para os artistas resistentes que reinventam a arte, à vanguarda fiel, hóspede do ostracismo, e aos apreciadores lúcidos. Não é preciso construir a máquina do tempo e voltar ao passado glorioso.

A mídia vez ou outra se dobra à boa música, ao bom filme. Menos sorte tem a literatura. Contudo, como diria Raul, se o rádio não toca a música que você quer ouvir, se a TV não mostra o que você quer ver, é muito simples, é só girar o botão, quer dizer, mudar de site e pra melhor.

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O piano misterioso foi copiado daqui e explicado aqui.