quinta-feira, 3 de maio de 2012

Orlandeli: sensibilidade e nonsense

Walmir Orlandeli é hoje um dos quadrinistas que mais admiro. Com um humor refinado pela sensibilidade e pelo nonsense, sem apelação, e ao mesmo bastante crítico, o autor segue em ascensão no mundo das HQ's (bora inventar outra expressão?). Não sei se ganha dinheiro suficiente com isso, pois reza a lenda que todo quadrinista (exceto o malvado capitalista André Dahmer, hehe!!!) tem sérios problemas para pagar as contas. Volta e meia, alguma tirinha será publicada aqui, por ora fiquem com esta, que muito me comoveu. 

Clique na imagem para ampliá-la. E não se prive de visitar o site do cara clicando em: Última Quimera.

terça-feira, 1 de maio de 2012

A massificação do ruído


A cultura, em tempos internéticos, tem ampliado seu caráter dinâmico, tantas são as trocas e fácil o acesso. Os bens culturais de massa cruzam os mares dos cabos ópticos e podem ser degustados no seio do lar e copiado para outros suportes que não o computador. 

Não por acaso esse processo de massificação muito assusta os de outrora, ao passo que inebria os de agora e nos faz perguntar o que será doravante. Os de outrora, em grande número bairristas, defendem seu tempo como se nada feito depois fosse bom e, por sua vez, os de agora supervalorizam seus ídolos, muitas vezes sem considerar o início de tudo. Cada um com seu pecado mortal. E como toda regra não é um dogma infalível, há aqueles que transitam inversamente a isso tudo, a saber, os novos que buscam os velhos, e estes que se rendem às (poucas, infelizmente) demonstrações de talento genuíno atuais. Ou seja, não há motivo para tanto receio nem tanta resistência. Ninguém precisa ser um Ariano Suassuna para ser um bom apreciador da arte.

Lamentável que o cinema, a música e a literatura de hoje estejam tão pautados pela superficialidade. O que há com as pessoas que produzem cultura? Culpa do mercado, ditador das regras desse jogo, ou dos consumidores alienados pela mídia? Encontrar algo com densidade artística, para além do discurso, requer esforço de garimpagem e tempo, muito tempo. Um esforço às vezes vão, às vezes impressionante.

Quem foi adolescente na década de 90 presenciou o fim dos bons e o apogeu dos inúteis. Viu programas de televisão, antes tomados pelo pop das bandas de rock, pelos senhores da Tropicália e da música romântica (puro lirismo!) ou de uma vertente mais sofisticada, como a inclassificável obra de Chico Buarque, receberem uma avalanche de axé, sertanejo e pagode. 

A música vinda da Bahia pouco se interessava com a coerência das letras, o importante era a coreografia, o close nas bundas e a galera saindo do chão. A do sudeste pouco reproduzia a expressividade da região e o pagode mais parecia uma câmara de ecos com tantas rimas terminadas em "ar", "er" e "ão". Havia o mínimo, e as pessoas se contentaram com isso a ponto de se satisfazerem com a total ausência de letra e melodia das canções (?) hodiernas.

Creio que as benesses tecnológicas estão sendo mal utilizadas. Como entender a mente de alguém que tem a oportunidade de experimentar as melodias mais belas já compostas e opta pelo ruído repetitivo? Alguém que troca a emoção e o "frio no estômago" dos filmes antigos por coisas toscas tipo os programas de TV? E o mais grave, que intelectualidade nascerá de uma geração que não lê?

Há luzes no fim do túnel, claro, e elas apontam para os subterrâneos dessa sociedade culturalmente entorpecida, para os artistas resistentes que reinventam a arte, à vanguarda fiel, hóspede do ostracismo, e aos apreciadores lúcidos. Não é preciso construir a máquina do tempo e voltar ao passado glorioso.

A mídia vez ou outra se dobra à boa música, ao bom filme. Menos sorte tem a literatura. Contudo, como diria Raul, se o rádio não toca a música que você quer ouvir, se a TV não mostra o que você quer ver, é muito simples, é só girar o botão, quer dizer, mudar de site e pra melhor.

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O piano misterioso foi copiado daqui e explicado aqui.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Supernatural-mente humanos

Não importa se é anjo, demônio, dragão, vampiro, um deus da mitologia nórdica ou qualquer outra criatura monstruosa. São sempre representados em figura humana em Supernatural (Sobrenatural, aqui no Brasil). É como se os criadores reiterassem a célebre "O homem é o lobo do homem". Decerto há um dente aqui, um olho amarelo ali, uma sombra acolá, mas tudo é humano, ou humanóide. Supernatural só recorre quando necessário aos efeitos especiais (acho que não se usa mais essa expressão). O conflito é sempre baseado nas pessoas, mesmo que representem na verdade da série seres fictícios. Este é  um dos grandes méritos do seriado, bem como a incansável busca pela felicidade dos Winchester e o maniqueísmo que há entre eles. Além de sacadas extremas como o paraíso ser aquilo que mais se gosta na Terra ou o inferno uma fila, na qual se pega uma senha, espera-se chegar até o início e, uma vez lá, volta-se para o final sucessivamente. Não conheço ninguém que goste de filas.

Na série, sugere-se o abandono de Deus como a causa de tanto caos e desequilíbrio entre os mundos, mas isso ainda não foi totalmente explicado, inclusive há eventos cuja única explicação reside na suposta intervenção divina. Em resumo, Supernatural desdenha dos conceitos de divindade que temos, coloca pobres mortais, Dean e Sam, como protótipos de Ulisses a enfrentar um mar de seres sobrenaturais e assume uma posição antropocêntrica, numa releitura pop do Renascimento.

Na sexta temporada, muitas reviravoltas aconteceram, o que é bem típico da série, e Castiel, após passar a perna em todo mundo, autodenomina-se Deus. Porém, quando ele aparece no vídeo é apenas uma figura humana em todos os sentidos, mesmo que o personagem seja um anjo, em forma e conteúdo. Porque o mal e o bem que conhecemos é humano, demasiadamente humano.

Que venha a sétima temporada de Supernatural. (E a trilha sonora arrasadora, a melhor de todas as séries!)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Dois filmes

Filmes, uma paixão comparável somente à música e à literatura para mim. Recentemente, vi alguns filmes por indicação da adorável Jaquelyne Diniz (@JaquelyneDiniz), dona do Sinuado Espelho. São eles, na sequência em que foram vistos:

- O fabuloso destino de Amélie Poulain (Le fabuleux destin d'Amélie Poulain, 2001)

Surpreendente. O roteiro é bem construído e amarrado, não peca pela mesmice, embora perto do final deságue em obviedades, quando se consegue deduzir com certeza o que Amélie fará após cada corte e mudança de ambiente/cena. A narração à la Ilha das Flores (como notou alguém num site que não lembro qual) dá agilidade ao longa, e as divagações do narrador é um elemento muito forte e engraçado. Transmite otimismo e um certo refrigério na alma, pois tem uma mensagem do tipo "fazei o bem sem olhar a quem" e de esperança no amor. É uma comédia sem apelação muito inteligente. Destaque para os "estratagemas" de Amélie. Palmas para os franceses!

- Muito além do jardim (Being There, 1979)

Assim como o primeiro, é uma comédia atípica, inusitada e, principalmente, provocante. O alheiamento de Chance a despeito de tudo o que o envolve é tocante. Ele é um jardineiro, apaixonado por TV, que após a morte do patrão é expulso da casa onde vivia e vaga sem rumo pela cidade até ser atropelado pelo carro que conduzia Eve, a esposa de Rand, um grande e influente empresário moribundo, de quem logra celeremente a amizade e confiança, a ponto de acompanhá-lo quando este recebe a visita do presidente dos EUA em sua casa, onde Chance é hospedado para cuidar da perna acidentada. Ao longo das cenas, o protagonista espalha frases de efeito, algumas de puro nonsense, entendidas na maioria das vezes como conselhos sobre a crise econômica ou franqueza diante de temas severos, como a morte. A ingenuidade do jardineiro impede que ele fale de outra coisa além do seu ofício, no que é entendido como se fosse um sábio falando parábolas. O fato é que Chance trata com naturalidade tudo o que causa apreensão às pessoas e se mantém distanciado. É franco num meio onde a falsidade impera, impassível ao assédio, não mente. Mas chora quando Rand morre segurando sua mão, mesmo assim não deixa de notar que isto "acontece com os velhos". Foi o filme que mais me tocou dos dois, porque me fez rir e refletir como se fosse um do Chaplin. Roteiro conciso, leve e sem lacunas, ótima atuação dos atores. E, como se não bastasse, tem um final surrealista e profanador. Enfim, perfeito.

Esses dois filmes estão longe do mero entrentenimento, pois tratam daquilo que nos torna humanos, no bom sentido, com suavidade e bom humor.