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sábado, 9 de julho de 2011

Novos dias (3)

Afora os eventos trágicos, morar na beira do rio Mundaú nunca foi um incômodo. Todos os dias ao acordar, eu tinha por hábito olhar o horizonte na direção que o rio segue, que é o lado em que o sol nasce, a lua aparece e a chuva vem. E que também, ao entardecer, recebe as últimas luzes do poente. A paisagem que me dava calma foi bruscamente interrompida, trocada por concreto e barulho de automóveis. Vale nada. Poderia compensar a vista da ponte iluminada no final da tarde pela da Serra da Barriga, tão bela, mas sem meu afeto telúrico. Quero o barulho das águas nas pedras, o arco-íris, mainha fechando a porta por causa da ventania oriental. Quero um estar em casa novamente. E já sinto um pouco disso, pois se aquece meu coração.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A festa de Madal

Acabou a festa. Luzes, som, balbúrdia vão-se por ora, para o deleite de quem dorme cedo. Agora caminhar é fácil, não piso no pé de ninguém, não esbarro nas moças. E o melhor: não preciso gritar para ser entendido. Ano que vem tem mais, fora as prévias ao longo do ano que apenas começou. 

Festa de Santo, melhor, de Santa hoje em dia é assim mesmo: pouca liturgia e muita folia. E muito lixo, e poucos banheiros, e pouco espaço, até porque este é da Santa e de seus convivas. Ano que vem acho que vou comprar ao menos uma cadeira pra sentar no cansaço. Não, é mais barato comprar um energético.

A festa de Madal reúne todos os paradoxos possíveis de uma cidade crescida do interior. É o caos. Para mim, que estou ingressando nesse espetáculo, as cenas que vi ao longo desses dias foram, no mínimo, ininteligíveis. Culpa talvez da música ruim e parca de poesia que imperou.

Mas a verdadeira festa, a verdadeira celebração não aconteceu na praça e, sim, no salão da igreja ou quando as ruas se tornaram solo sagrado. Pois a festa cristã de Madal está nas pessoas de fé. E isso está se perdendo. Dentre tantas centenas de pessoas na procissão desconfio que poucas tenham sequer um terço da fé da mulher que vi carregando um tijolo na cabeça. Sem dúvida a cena mais bonita da procissão final.

Tudo se esvai mesmo, há mais forças contra que a favor e de fato as pessoas não podem continuar as mesmas, nem a tradição é inabalável, tampouco desculpa pra legitimar a hipocrisia. A festa de Madal poderia ser mais bonita, porém não a mesma de outrora. A beleza da fé não voltará, contudo, em seu nome a festa de Madal é esse caos que presenciamos. Infelizmente.

As cenas bonitas ficam cada vez mais foscas. Resta a folia.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Inconclusão

O que mais fiz nos últimos dias foi divagar devagar. Assim aleatoriamente, sem concluir. Às vezes, mesmo dEUs faz isso. E como ser enérgico não é um dos meus pontos fortes, tenho a lerdeza ao meu favor. Faço uma coisa hoje, espero para terminar outra após o sétimo dia, engato a primeira marcha e vou com ela até reaver a coragem de encarar a próxima tarefa.

Planejei, sem sucesso, escrever sobre o saldo zero de 2010, que graças a dEUs não pendeu para o negativo, apesar de tantas tragédias: morte de ente querido, relacionamentos (des)complicados, o beijo do rio Mundaú, a labuta. Mas, enfim, continuo exatamente igual, agora zerado de confusões.

Deste modo inicia-se 2011 para mim. E ele já foi generoso comigo, afinal a fé (de)move montanhas. Nesse começo do fim foi-me permitido conhecer mais de perto um mundo, uma mente incompreendida e sóbria. Conheci e reconheci alguém que não tem medo de dizer a verdade, o porquê disso e senti-me feliz de poder estar entre seus amigos. Lição (re)aprendida: só tem medo da verdade quem prefere a mentira, ou "a mentira nunca é plena, mata a alma e a envenena" (Seu Madruga, filósofo).

A madrugada mantém-se minha amiga e seu silêncio, meu alento. Nela descanso, bebo, danço, rio, balanço, sou. Pena que não posso aumentar o volume. Miguel dorme. Continuo concluindo apenas que estou inconcluso. Ah, e sem sono.

Bom 2011, fiéis!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ventiladores, caminhos e janelas

Atualmente, já consigo dormir bem, apesar do calor, das motocicletas e dos ecos do trem, desde que não me faltem água para um banho e um ventilador. Deitar tornou-se um ritual noturno. E diurno se for o caso.

Não abro a janela do quarto nem afasto a cortina. O sol é implacável o dia todo. O sol queima eu queima o menino. Caminho da escola. Escola: "Miguel!", ele vem rindo, às vezes, e conversa pelo trajeto de casa, chora, às vezes, quer todos os brinquedos das lojas e dos camelôs. É sabido demais, quando quer beija as moças que o enfadam, sempre cumprimenta a Dona Socorro da banca de tecidos. Ai de meus braços magrelos quando não quer caminhar. Miguel é quem me abre as janelas.

Acredito que estou quase habituado ao lugar. Pelo menos estranho é o dia sem feira, mesmo sendo uma terça. Mas deve ser o horário de verão ou o fim de ano que chega mais rápido os culpados por isso. Coisas urgentes. Eu, na minha pressa, atravesso o sinal maluco nunca aberto ao pedestre mirando a sombra e desejando impetuosamente um copo de água gelada. E chego atrasado ao trabalho. Pelo caminho do trabalho, tantas roupas não me vestem.

À noite volto para casa caminhando e... caminhando. A noite é um prazer de verão. Só me faltam braços a mais. Ah, e mais um ventilador.

U.P., 14/12/2010

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Ainda sonolento

Enquanto eu sigo nesta laboriosa empreitada de adaptação ao mundo mais selvagem, eu reclamo: quanto barulho nesta terra! Pra que tanta música (de péssima qualidade) no ar? Se ao menos o ócio aqui fosse produtivo... está mais para reprodutivo, isso sim.

Eu sigo me acostumando, desconjuntado, malamaiado diante dessa nova realidade. Há coisas que só percebo agora: o inverno daqui é ótimo, assim como o silêncio é caro e distante. Outras coisas compensam: certas belezas, certos confortos que antes não eram tão cotidianos.

Os amigos são minha cama, meu repouso, meu alento. Sempre. Por eles o novo far-se-á velho, embora eu não deseje mais voltar ao que nem pode ser chamado mais disso ou daquilo.

Aqui tem uma coisa muito boa: a Lua parece mais próxima.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Levemente acordado

Há um bom tempo e eu ainda não me acostumei com a Terra da Liberdade plenamente. Prossigo gozando de algumas comodidades. Principalmente de ter os amigos por perto e caminhar até o trabalho. Acordo e não há muito o que fazer, aliás, haverá doravante.

Não é nada interessante para mim ver uma paisagem de cimento todo dia. Eu preciso do rio. Eu preciso, na verdade, de tanta coisa que agora não consigo lembrar. União dos Palmares é tão grande... Surgem oportunidades, circunstâncias que não me deixam estagnado e com isso eu vou ressurgindo. O passado pouco se faz presente e por isso raramente eu me religo a ele.

Nesse mês superado aconteceu muita coisa, uma delas ficará marcada no meu corpo para sempre. Bom? Ótimo? Inefável. Senti-me um sol.

Para continuar esta crônica incoerente, ontem acordei feliz de saber que o Brasil, embora ainda ultrajante, continuará menos ruim com Dilma lá. Na verdade, é isto o que eu espero. Convenci-me de que Lula, o mito, foi menos ruim que o FHC. Na verdade, outra vez, de todos os partidos políticos que estão aí o mais imprestável que há é o PSDB. Vide o caso alagoano: muito cimento e pouco serviço. Enfim, tomara que a figura de uma mulher na presidência seja tão simbólica quanto a do operário.

Pode não parecer, mas estou otimista, não quanto ao futuro do país, quanto a mim mesmo, pessoalmente. Faz tempo que não me sinto tão bem. Só preciso agora de férias.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Levemente adormecido

Levanto-me pela manhã e indago: "Ainda não acordei?!". Sim, porque tudo ainda é novo e estou descobrindo os caminhos. Trafego por aí sem conhecer os rostos, mudo. Estranhos, eu e essa nova realidade. Por vezes sufocado, por vezes livre, são sensações muito díspares que o cotidiano novíssimo apresenta. Preencho meus dias com poucas coisas, mas demandam tempo e meu tempo se esvai no liquidificador do tédio. Mesmo assim, está tudo bem.

Sigo sem me lamentar, pensando tanto quanto antes. Quando eu me acostumar, talvez organize melhor meu tempo e tenha tempo para gastar em outras eventualidades. Por enquanto meu campo de repouso é o Rock'n Roll cantado em coro com os amigos, os Cavaleiros do Apocalipse, a turma etílica-filosófica.

Bem, amor... paciência. Paciência, pois cheguei agora. No entanto, não me deixes. Acordarei em breve.