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sexta-feira, 22 de junho de 2012

Setecentos e trinta depois


O acúmulo de dias, noites e catástrofes só nos faz mais de nós.
A reconstrução interior é ainda mais árdua.
As formas não querem se encaixar, apesar da necessidade
Setecentos e trinta e tantas dores depois...

José Minervino Neto
União dos Palmares via Branquinha
18 a 20 de junho de 2012

sábado, 9 de julho de 2011

Novos dias (3)

Afora os eventos trágicos, morar na beira do rio Mundaú nunca foi um incômodo. Todos os dias ao acordar, eu tinha por hábito olhar o horizonte na direção que o rio segue, que é o lado em que o sol nasce, a lua aparece e a chuva vem. E que também, ao entardecer, recebe as últimas luzes do poente. A paisagem que me dava calma foi bruscamente interrompida, trocada por concreto e barulho de automóveis. Vale nada. Poderia compensar a vista da ponte iluminada no final da tarde pela da Serra da Barriga, tão bela, mas sem meu afeto telúrico. Quero o barulho das águas nas pedras, o arco-íris, mainha fechando a porta por causa da ventania oriental. Quero um estar em casa novamente. E já sinto um pouco disso, pois se aquece meu coração.


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Pós-enchente

A poucos dias de se completar um ano do evento que mudou a minha vida, a enchente, sinto-me ainda ligado pelas pontas ao dia anterior. No dia 17 de junho de 2010 fazia planos para mais um período de festividades juninas. Na sexta-feira, 18, percebendo que a chuva não cessaria, decidi deixar o trabalho e fui para casa. Ao chegar lá, minha família e eu fizemos tudo o que já era rotineiro nessas ocasiões. Penduramos os objetos nas paredes, levamos o maquinário e alguns móveis para lugares mais altos, fechamos as portas e saímos em busca de um lugar seguro,  quase às cegas, com água acima do joelho.

Longas horas depois de tanto choro, barulho de casas ruindo, frio, desespero, toda minha vida material tinha ido embora. Ficou o mais importante, a vida e as roupas que a cobriam. O resto desceu.

Mudamos temporariamente para a capital. Fomos abrigados pela minha prima doente, já incapaz à época. Foram os dias mais entediantes de toda a minha vida, sem comunicação, ilhado, deprimido pelas perdas e pela condição da minha prima. Era fácil chorar à noite antes de dormir, então disfarçávamos constantemente. Temia por meu pai em especial, o mais solitário de nós.

Permanecemos juntos, enfrentando nossas diferenças mais de perto e de modo mais contido por estarmos em terra estranha. Até que conseguimos alugar uma casa em União dos Palmares, e depois outra. Os amigos foram fundamentais nessas horas, tanto nos doando bens quanto gastando seus ouvidos conosco. Nunca esquecerei aqueles que não hesitaram em nos ajudar. Obrigado, amigos.

Ainda não me sinto em casa. Tudo é muito estranho, fico engasgado com certas coisas. Não suporto ver as ruínas deixadas pelo Mundaú. Volto à minha terrinha apenas quando necessário ou indispensável. Penso sempre nos meus amigos de lá, embora eu seja um tanto negligente. Sei que me compreendem. 

Ainda estou pendurado, como disse lá em cima. Porém, com uma tesoura pronta para cortar a linha numa mão e um compasso já descrevendo um novo ciclo, na outra. Em busca de novos dias, de novo.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

As minhas Branquinhas são outras

As minhas Branquinhas são outras, paráfrase da célebre frase do poeta Jorge de Lima, que certa vez, lá no sul dissera: "Minhas Alagoas são outras". Disse isso essa semana, quando na roda de amigos alguém falava mal da minha terra natal. É, são outras mesmo. E não é nenhum delírio telúrico, pois quis vê-la assim.

Minha Branquinha é muito mais pequena e bonita do que se pode ver e perceber. Resume-se a um punhado de amigos, parentes e lugares que nem existem mais após a enchente de 18 de junho de 2010, pelo menos da forma como me acostumei. Hoje, revendo as fotografias que fiz há uns dois anos atrás, senti saudades desses lugares, especialmente do quintal da minha casa na beira rio. 

Está tudo guardado dentro de mim. Ainda não consigo me relacionar bem com minha terrinha após a enchente. É difícil demais pra mim olhar o que sobrou. Prefiro as fotografias.

Igreja de São Sebastião
Quintal da minha antiga casa
Ponte sobre o rio Mundaú
Praça e Biblioteca
Eu, este que vos bloga

(Clicando nas fotos, vê-se em tamanho maior. Todas as fotos são de minha autoria, inclusive a última, feita com o recurso de disparo em 10 segundos da câmera)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Levemente acordado

Há um bom tempo e eu ainda não me acostumei com a Terra da Liberdade plenamente. Prossigo gozando de algumas comodidades. Principalmente de ter os amigos por perto e caminhar até o trabalho. Acordo e não há muito o que fazer, aliás, haverá doravante.

Não é nada interessante para mim ver uma paisagem de cimento todo dia. Eu preciso do rio. Eu preciso, na verdade, de tanta coisa que agora não consigo lembrar. União dos Palmares é tão grande... Surgem oportunidades, circunstâncias que não me deixam estagnado e com isso eu vou ressurgindo. O passado pouco se faz presente e por isso raramente eu me religo a ele.

Nesse mês superado aconteceu muita coisa, uma delas ficará marcada no meu corpo para sempre. Bom? Ótimo? Inefável. Senti-me um sol.

Para continuar esta crônica incoerente, ontem acordei feliz de saber que o Brasil, embora ainda ultrajante, continuará menos ruim com Dilma lá. Na verdade, é isto o que eu espero. Convenci-me de que Lula, o mito, foi menos ruim que o FHC. Na verdade, outra vez, de todos os partidos políticos que estão aí o mais imprestável que há é o PSDB. Vide o caso alagoano: muito cimento e pouco serviço. Enfim, tomara que a figura de uma mulher na presidência seja tão simbólica quanto a do operário.

Pode não parecer, mas estou otimista, não quanto ao futuro do país, quanto a mim mesmo, pessoalmente. Faz tempo que não me sinto tão bem. Só preciso agora de férias.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Levemente adormecido

Levanto-me pela manhã e indago: "Ainda não acordei?!". Sim, porque tudo ainda é novo e estou descobrindo os caminhos. Trafego por aí sem conhecer os rostos, mudo. Estranhos, eu e essa nova realidade. Por vezes sufocado, por vezes livre, são sensações muito díspares que o cotidiano novíssimo apresenta. Preencho meus dias com poucas coisas, mas demandam tempo e meu tempo se esvai no liquidificador do tédio. Mesmo assim, está tudo bem.

Sigo sem me lamentar, pensando tanto quanto antes. Quando eu me acostumar, talvez organize melhor meu tempo e tenha tempo para gastar em outras eventualidades. Por enquanto meu campo de repouso é o Rock'n Roll cantado em coro com os amigos, os Cavaleiros do Apocalipse, a turma etílica-filosófica.

Bem, amor... paciência. Paciência, pois cheguei agora. No entanto, não me deixes. Acordarei em breve.

domingo, 20 de junho de 2010

Recomeçar

Dessa sexta-feira, 18 de junho, em diante estarei sofrendo muito. Eu e minha família fomos vítimas da fúria das águas revoltadas. Revoltadas porque nossa culpa ocupar e destruir o leito dos rios. Resumindo, minha família e dezenas de outras de Branquinha-AL perdemos tudo o que tínhamos, alguns até a vida. Isto nos sobrou mais a força de formiguinha para recomeçar. E como é triste, quantas lágrimas salgaram o lamaçal, molharam os escombros. Os músculos ainda estão doloridos por conta dos esforços inúteis para salvar os objetos de casa. Perdi metade do que vivi até hoje, pois o rio levou contos, poesias e muitos outros escritos guardados com muito cuidado ao longo de mais de quinze anos de amor à palavra. Meus livros tão queridos desceram. Tomara que alguém os leia, assim sairei do anonimato. Porém, a vida, agora mais curta, prossegue. Agradeço... a Deus, força estranha que nos impeliu? ao racionalismo, força estranha que nos repeliu? Não sei, apenas sou grato por minha família e amigos muito amados estarem vivos e tomando decisões para reconstruir. Como diz o ditado popular, só não tem jeito pra morte.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Reconstruir

Reconstruir... é necessário, mas cansa. Estou cansado de ter de reconstruir o mundo, reconstruir a sociedade, reconstruir os fragmentos que formam as coisas, reconstruir o reconstruir. Que dança interminável é essa? O que vejo, se é uma realidade real, se existe, é um processo avançadíssimo de destruição. Escatologia, dir-se-ia.

Um dos meus melhores amigos sofreu um acidente, deslizou nas escadarias e bateu a cabeça. Perdeu 40% da memória, aproximadamente. Das poucas lembranças que ainda tem sobre amigos e demais pessoas de seu entorno, lembrou-se de mim, da minha fisionomia, nome, o que faço. Em geral, são recordações muito recentes das últimas conversas que tivemos por telefone ou MSN. Evaporaram-se os grandes momentos que passamos juntos de alegria e tristeza. Coube a mim e a outros a missão de ajudá-lo a reconstruir sua memória, e, por consequência, sua afetividade. Minha primeira atitude foi montar slides com fotos e textos de alguns momentos inesquecíveis (!).

Surpreendi-me porque não caí aos prantos nem perdi a vontade de fazer as atividades cotidianas. Já chorei muito em conversas telefônicas quando me contara sobre os flagelos sofridos no Rio de Janeiro. Hoje, simplesmente não entendo a ausência das lágrimas. Temo que isso seja um passo à insensibilidade que tanto combato.

Parece que estou vivendo um capítulo de novela daqueles onde o protagonista perde a memória. Jamais imaginei uma situação dessa em minha vida. Na ficção "tudo sempre acaba bem", o herói recupera as perdas e volta para os braços da mocinha, e neste intervalo mata o vilão. Na realidade, essa realidade real, sobra a esperança lonqínqua de que tudo re-torne. Afinal, não está tudo lá ainda na cabeça dele, porém desconectado? (Se você que lê esse texto souber algo de neurologia, explica-me melhor, corrige-me).

Enquanto a natureza não responder, vou tentando como me é possível ajudá-lo. Ponho a massa esperando o tijolo.

Fernando, meu irmão mais velho, nem a sua desmemória me fará desistir de ti. Porque eu te amo.

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WILTON, estamos aguardando-te!