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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Retrato de carnaval, frevo e maisena

Na cadeira, com uma blusa vermelha e uma calça jeans contrastando, minha mãe sorri comigo no colo, empoeirado de maisena, cabelos encaracolados. Eu tinha dois ou três anos, vestia uma blusa com listras amarelas e brancas. Ao nosso lado, tia Neuma de óculos escuros, blusa azul marinho com barra vermelha nas mangas, apoiando o queixo no pulso levemente fechado, esboçando seu sorriso peculiar, que o fotógrafo apressado não esperou surgir entre a maisena. Meu pai traja calças de brim azul, alpercatas de couro, uma camiseta branca, sorri espalhafatosamente abraçado ao Seu Geraldo, este de calça marrom, alpercatas e camisa de botão preta (ou seria azul escuro?) aberta, peito senil à mostra e uma caneca de alumínio refletindo o flash da câmera. Caneca certamente cheia de cerveja e outras aliterações. Ambos batizados de maisena. Mais à direita de quem olha o retrato, meus primos, Kiko e Júnior de sandálias Havaianas, bermudas bem curtas e coloridas de listras azuis, amarelas e vermelhas. Kiko sem blusa, Junior de regata azul claro, cabelos alvoroçados, cobertos de maisena e com toda travessura carnavalesca possível nos sorrisos. Ao fundo, alguns foliões, também embranquiçados de maisena, mas a foto não registra o sorriso de nenhum deles. A música, um frevo bem quente, toca nesta hora, ministrada pela orquestra encarregada de animar as matinês e bailes das noites durante todo o Carnaval, até chegar o momento da Bandeira Branca e sair pelas ruas com o bacalhau na vara. Enfim, chega a quarta-feira ingrata. E vamos dormir e depois da brincadeira, tomamos banho para tirar o pó dos ouvidos. E vivemos mais um ano para repetir tudo de novo, fazer uma foto diferente.


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

100 anos com Gonzaga


O sertão é nosso lar, repetimos sempre meu bravo amigo Fernando e eu. Lá temos raízes profundas: ele, sertanejo puro, matuto da roça que lutou até alcançar seu sonho de conduzir suas ovelhas; eu, filho de sertaneja e apaixonado pela terra de onde brotou meus ancestrais. Cresci ouvindo as histórias do povo da caatinga: de Lampião, Padre Cícero, da gente bonita e acolhedora das serras, das lendas e causos da minha vasta parentela. E a música faz parte disso tudo, tanto como manifestação de alegria quanto de nostalgia e saudosismo, para mim, de coisas que somente imagino.

O retirante, a feira, o homem valente, o amor grande nas simplicidades, a dor, a esperança. É na música de Seu Luiz Gonzaga que revivo essas imagens e quando me sinto um sertanejo. Encontro-me com a outra metade de mim, uma vez que nasci na beira do rio Mundaú. Reconheço a história dos meus avós na cantoria do Velho Lua, entro em sintonia com meus amigos de Água Branca e Mata Grande, alturas das Alagoas, vivo na catarse o que eles vivem na pele de sol a sol. Fico pasmo por detectar ainda o boiadeiro em seu caminho regular cuidador da riqueza pouca que tem ou muita dos coronéis. Fico doce comendo rapadura, mastigo devagar o queijo bom. E não deixo de me indignar que haja ainda tanta fome, tanta miséria, que o quadro continue o mesmo apesar das mudanças ocorridas nos últimos anos em que um nordestino devolveu a esperança àquele povo.

Luiz Gonzaga com sua voz e fole inconfundíveis me transportam para este paraíso na Terra, meu lugar de aconchego, onde renovo minhas energias para continuar remando.

Falar do grande artista que é Luiz Gonzaga é redundante. Ele já era pop quando isso nem existia. Ponto.

Dentre as histórias que minha mãe me contou há uma especial para esta data dos cem anos do Gozagão. É que minha voinha Valdeci certa feita brigou com Ciço Fumeiro para ir a Paulo Afonso-BA ver o show do sanfoneiro de Exu-PE. Ela queria chegar logo cedo, tipo de manhã para um show marcado para noite. Ela queria ficar bem perto do palco, bem perto do seu artista preferido. Imagine uma beata tietando! Ciço não teve como contradizê-la, a mulher era firme, e foram-se dançar forró.

Hoje, quando volto à mesma casa onde minha mãe, tias e primos cresceram, ainda sinto o cheiro de meus avós. Está lá a paisagem cantada por Luiz. Para onde eu for, basta um acorde de sanfona para me levar ao sertão, ou assobio despretensioso d'algum baião.

Luiz Gonzaga não morreu, se encantou.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Circo Nostalgia apresenta o Palhaço Saudade


Fui ao circo... 

Um daqueles que perambulam pelos interiores e bairros distantes das capitais. 

Não era tão pequeno e bem mais organizado do que aqueles da minha infância e adolescência. Nas arquibancadas, ao invés de poleiros onde o público se equilibrava e dividia bundas e pés, plataformas com cadeiras de plástico. Cabos de aço em vez de cordas. Canhões de luzes, som de primeira com músicas de quinta categoria, picadeiro bem-feito e classicamente redondo. Muita gente e... pipoca!

O espetáculo trouxe equilibrista, globo da morte com duas motocicletas, meninas penduradas a mais de 10 metros do chão sem rede de segurança embaixo, a mulher com o cabelo mais forte do mundo, malabaristas e mais outros números típicos. Senti muita falta de um mágico acendendo uma lâmpada na testa de alguém do público e as libidinosas rumbeiras, alegria de nossa. Mas, não faltaram palhaços, claro, senão não seria circo.

A grande mágica, o momento da grande explosão no circo, porém, vem sempre após a primeira graça do palhaço. Abram-se as cortinas para algumas palavras sobre este profissional do escárnio.

Eis diante de centenas de pessoas um só homem com a cara pintada, exercendo um ofício que não se ensina, seu bosta!, protegido apenas pela maquiagem no rosto. Porque é apenas isto que ele tem de proteção contra o pudor e a moral, é o atestado de sua licença para escarnecer de todos os defeitos explícitos e suscitar os secretos. É sua permissão para rir e zombar sem criar máculas. Todos estão nus diante do palhaço e lhe sugerem algo. O pó de arroz, a tinta barata defendem-no também das afrontas da parcela bizarra do público, esconde-lhe a ira, permite-lhe rir mesmo estando triste. Palhaço é bobo-da-corte cujo rei e rainha é o adorável público: as crianças que querem apenas rir e comer guloseimas, os jovens casais oportunistas, os adultos sedentos de purgação.

O circo está acabando. Logo não haverá mais lona para abrigar nem pessoas para carregar essa alegria itinerante. Os meninos ficarão a sonhar com o inacessível Cirque du Soleil, ou nem sonharão. Jamais conhecerão o alívio de não ser a vítima daquela piada escrota e de duplo sentido, muito menos o que significa "maiar". Acabarão as arruaças dos palhaços pelas ruas divulgando o espetáculo das 19 horas e os meninos ficarão sem ganhar confeitos ou mesmo ingressos gratuitos. Pais e mães dormirão sem a pertubação do filho que quer ir ao circo com o colega.

Restará o Circo Nostalgia. No qual quando chove há espetáculo!

...e vi o número do Palhaço Saudade.


domingo, 23 de agosto de 2009

Saudades a-gosto (2)


Agosto, portanto, é um mês de saudades. Como saudade pressupões tempo, vale ressaltar que agosto é o mês do meu dia. Tempo em que o tempo me carrega à revelia, sempre. Num instante resumo minha vida: de menino tímido a adolescente tímido, perdi, pelas minhas contas, muito, tanto que dediquei boa parte dos últimos dois anos tentando recuperar, quem advinha?, o tempo perdido. Pensando bem, nem tão perdido assim.

Era muito mais simples sair de casa e encontrar os amigos para brincar, juntar vinte meninos de bicicleta e percorrer os limites da terrinha, havia paciência para contar, inventar e ouvir estórias, assistir desenhos animados considerados hoje inadequados, violentos como Pica Pau, Tom & Jerry, Cavaleiros do Zodíaco, Caverna do Dragão, Papaléguas, os seriados japoneses Jaspion, Changeman, Jiraya etc., os filmes do Indiana Jones, Robocop, os do Chuck Norris, Rambo, do Van Damme, todos na sessão da tarde. Nunca quis jogar uma bigorna na cabeça de ninguém, tampouco matar meus colegas de classe.

Ah, jogar video game! Era um ritual: não lanchar na escola, almoçar assistindo os últimos desenhos e me danar pra locadora. Ainda curto muito, sobretudo, o Nintendo. A propósito, o Super Mario World, aquele do Yoshi, é o melhor game de todos os tempos, seguido de Superstar Soccer e Top Gear. É diversão garantida.

Tempo sem muitas complicações.

Neste mês augusto, completam-se vinte anos de sublimação de duas personalidades simplesmente altíssimas: Luiz Gonzaga e Raul Seixas. Planejei escrever um post sobre eles. Basta dizer que isso só me torna mais saudosista, essas datas redondas. Saudades desses reis.

Pois é, em agosto o saudosismo aflora. Fica difícil terminar este texto. Depois se der vontade de escrever mais, escreverei.

Saudade: tempere a-gosto.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Saudades a-gosto (1)


O saudosismo tornou-me um apreciador do passado que não vivi, na maioria das vezes. Sempre digo que nasci na época e lugar errados, gostaria de ter vivido o romantismo, a psicodelia, a contracultura e a rebeldia dos anos 50, 60, 70 e 80. Por conta disso, às vezes, transformo-me em alienígena dependendo de onde e com quem estou. Como reza o saudosismo, acredito que tudo de bom em termos de vida e arte (música especialmente) já foi feito. E sinto saudades.

A saudade, porém não é espontânea em sua totalidade, há um fator mídia. Por exemplo, como gostaria de ter estado em Woodstock 40 anos atrás! Ah, um show do Legião Urbana, Pink Floyd, Nirvana, Raul Seixas, Luiz Gonzaga, The Doors, The Who, Elvis Presley, aquele, aquela, são tantos! Neste ano realizei o sonho de ir a um show de Paralamas do Sucesso e Titãs durante o Festival de Música e Arte de Garanhuns, ano passado foi Biquini Cavadão, Cidade Negra e Zeca Baleiro (este em Maceió debaixo de muita chuva, mesmo!).

No entanto, um fator é primordial, quase imanente, hereditário: minha MÃE. Ela me ensinou a gostar de Roberto Carlos e de uns clássicos que tocavam na vitrola de Ciço Fumeiro, naturalmente. Sou apaixonado pela infância dela, simplesmente perfeita. Roubar manga, goiaba, brincar livremente, sonhar livremente. Oxe, bom demais! E o sertão? Convido-te a conhecer, se conhece, a voltar. O sertão é o nosso lar, repete em coro um sertanejo amigo meu. Graças à mãinha eu sou assim, mais feliz que triste.

Hoje, as coisas são muito sem graça, sem poesia, sem sentimento, sem aquela ingenuidade que dava às coisas beleza. Hoje, quem se espanta com as inovações tecnológicas? Conheço sertanejo que não acredita que o homem foi à Lua, eu mesmo não creio de todo. Hoje, quem valoriza a cultura popular? Os mais velhos, nossos remanescentes que morrerão sem poder transmitir seu legado.

Minha irmã adora chamar-me de abestalhado. E sou. É uma tremenda besteira sonhar com o passado, mesmo o passado vivido. Mas não consigo me desvencilhar dessa alegria tristinha, impossível. Nem quero. Afinal, como diz Graciliano Ramos em Angústia:

A minha pátria era a vila perdida no alto da serra, onde a chuva caía num neblina que escondia tudo. Se eu tivesse ficado ali, ignoraria o resto do mundo.

Não fiquei lá, infelizmente.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Saudades do Paraíso


Há algum tempo, acho que já mais de ano, lendo Angústia, outra obra-prima do Graciliano Ramos, deparei-me com uma frase que resume todo o meu sentimento em relação à sociedade (daqui, alhures, de qualquer lugar). Ei-la:

“Minha pátria era a vila perdida no alto da serra, onde a chuva caía numa neblina que escondia tudo. Se eu tivesse ficado ali, ignoraria o resto do mundo.”

Sou meio niilista. Um saudosista completo. O meu paraíso na Terra é um lugar onde a maioria das pessoas não é alfabetizada, se curam com folhas e raízes, acreditam em lobisomem, alma penada, rezam perante uma imagem do Padre Cícero, Frei Damião e outros santos consagrados ou não, emprestam e nem lembram de buscar de volta, a não ser numa precisão, vão à missa, à procissão, recebem pessoas em suas casas e dão-lhes todas as mordomias, sempre oferecem o melhor sem mesquinhez, são pessoas verdadeiras, simples... acima de tudo, pessoas FELIZES.

Sinto saudades do Sertão, da terra que pariu meus avôs e minha mainha.

José Minervino Neto
Branquinha, 06/10/2008