sábado, 8 de janeiro de 2011

Inconclusão

O que mais fiz nos últimos dias foi divagar devagar. Assim aleatoriamente, sem concluir. Às vezes, mesmo dEUs faz isso. E como ser enérgico não é um dos meus pontos fortes, tenho a lerdeza ao meu favor. Faço uma coisa hoje, espero para terminar outra após o sétimo dia, engato a primeira marcha e vou com ela até reaver a coragem de encarar a próxima tarefa.

Planejei, sem sucesso, escrever sobre o saldo zero de 2010, que graças a dEUs não pendeu para o negativo, apesar de tantas tragédias: morte de ente querido, relacionamentos (des)complicados, o beijo do rio Mundaú, a labuta. Mas, enfim, continuo exatamente igual, agora zerado de confusões.

Deste modo inicia-se 2011 para mim. E ele já foi generoso comigo, afinal a fé (de)move montanhas. Nesse começo do fim foi-me permitido conhecer mais de perto um mundo, uma mente incompreendida e sóbria. Conheci e reconheci alguém que não tem medo de dizer a verdade, o porquê disso e senti-me feliz de poder estar entre seus amigos. Lição (re)aprendida: só tem medo da verdade quem prefere a mentira, ou "a mentira nunca é plena, mata a alma e a envenena" (Seu Madruga, filósofo).

A madrugada mantém-se minha amiga e seu silêncio, meu alento. Nela descanso, bebo, danço, rio, balanço, sou. Pena que não posso aumentar o volume. Miguel dorme. Continuo concluindo apenas que estou inconcluso. Ah, e sem sono.

Bom 2011, fiéis!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ventiladores, caminhos e janelas

Atualmente, já consigo dormir bem, apesar do calor, das motocicletas e dos ecos do trem, desde que não me faltem água para um banho e um ventilador. Deitar tornou-se um ritual noturno. E diurno se for o caso.

Não abro a janela do quarto nem afasto a cortina. O sol é implacável o dia todo. O sol queima eu queima o menino. Caminho da escola. Escola: "Miguel!", ele vem rindo, às vezes, e conversa pelo trajeto de casa, chora, às vezes, quer todos os brinquedos das lojas e dos camelôs. É sabido demais, quando quer beija as moças que o enfadam, sempre cumprimenta a Dona Socorro da banca de tecidos. Ai de meus braços magrelos quando não quer caminhar. Miguel é quem me abre as janelas.

Acredito que estou quase habituado ao lugar. Pelo menos estranho é o dia sem feira, mesmo sendo uma terça. Mas deve ser o horário de verão ou o fim de ano que chega mais rápido os culpados por isso. Coisas urgentes. Eu, na minha pressa, atravesso o sinal maluco nunca aberto ao pedestre mirando a sombra e desejando impetuosamente um copo de água gelada. E chego atrasado ao trabalho. Pelo caminho do trabalho, tantas roupas não me vestem.

À noite volto para casa caminhando e... caminhando. A noite é um prazer de verão. Só me faltam braços a mais. Ah, e mais um ventilador.

U.P., 14/12/2010

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Subversivo

Subversivo, adjetivo, qualidade de quem corrompe a lei. Nos anos plúmbeos, caracterizava qualquer pessoa que pensasse e divulgasse suas idéias libertárias, anárquicas, comunistas, amorosas, poéticas, pacifistas, enfim, democráticas. Todos os degredados filhos de Eva.

Como não sou propriamente desse tempo, tempo em que não me ocorriam idéias, penso: será possível ser subversivo ainda? Haverá por que lutar novamente?

Subversivo, adjetivo, qualidade de quem corrompia a lei. Nos anos dourados, caracteriza as pessoas que pensavam e divulgavam idéias libertárias, anárquicas, comunistas, amorosas, poéticas, pacifistas, enfim, democráticas. Todos os degredados filhos de Adão.

Como sou propriamente deste tempo, tempo em que me ocorrem idéias, penso: é possível ser subversivo ainda? Há por que lutar novamente?

Subversivo, adjetivo romântico, qualidade de quem está abaixo do verso. Nos meus anos, caracteriza as pessoas que pensam e vivem um ideal. Todos os amados filhos de deus.

sábado, 20 de novembro de 2010

Consciência Negra

Dia da Consciência Negra. Nunca sei o que dizer desse dia tão simbólico, tampouco desejo fazer uma revisão histórica dos fatos que o produziram. De uma coisa estou certo: ainda falta muito para que Alagoas reconheça seu lugar na história do Mundo, isso mesmo do Mundo, a partir da história da resistência quilombola. E a "Terra da Liberdade", então... uma lástima.
Eu, fruto da miscigenação, meio litorâneo, meio sertanejo, quando me perguntam a respeito da minha cor de pele, não hesito: "Negro". Nada de moreno. "Ah, mas sua mãe é branca", dizem alguns mais próximos. Aí eu reafirmo, "sou negro". Trago isso porque ser negro é bem mais que uma questão de cor, pois é uma questão de identidade, bem mais forte que as circunstâncias "limitadoras".
Não quero demonstrar com minha experiência que sou um modelo. Somente desejo expressar minha indignação à uma parte da sociedade que ultraja sua história, sendo os detentores do poder público os mais responsáveis por isso. 
Bem, nós temos aqui um herói de verdade, com uma história construída por fatos, cuja manifestação sintetiza-se na figura de Zumbi dos Palmares. Não é a história de um homem, mas de uma nação formada por vários povos oriundos da Mãe África.
Mais que transformar nossa terra num roteiro turístico, o maior desafio é torná-la de fato uma terra livre novamente. Afinal, não foi aqui que nasceu a liberdade? Que ao menos ensinemos nossos meninos e meninas que a negritude, nossa identidade, está além de desfiles, teatrinhos, movimentos sem emoção ou uma data. Que a religião negra não é macumba pra fazer mal a alguém nem coisa do demônio e, sim, uma forma diferente de louvar o transcendental. Enfim, que a diferença não significa inferioridade ou superioridade. Por isso, só quero uma coisa hoje e sempre: respeito.

Adendo: o que eu quero é poder para o povo negro! (14/12/2020)