quarta-feira, 14 de novembro de 2012

As mãos de Irinéia



Irinéia era a menina que bulia no barro por curiosidade.

Cresceu, casou, veio uma penca de filhos e, após o primeiro casamento, encontrou Antonio, seu "veio" e aprendiz primogênito.

Não se contentava em fazer apenas panelas e cuidar da casa e dos filhos. A curiosidade a persegue por toda a vida, atiça-lhe a criatividade, inquieta suas mãos. Sutis, precisas, a moldar o barro sob o olhar carregado de história.

Antonio deixou de buscar o barro preto no campo verde para sentar tijolos (afinal os tempos mudaram...). O barro que ergueu tantos lares no Muquém e redondezas, agora servia a arte de Irinéia e, então, conhecemos uma artista filha do Quilombo dos Palmares.

Com as mãos já cansadas de toda uma vida, mas ainda firmes, Dona Irinéia retrata o mundo, lendo e relendo-o, transformando o barro informe.

Sua técnica é simples. Seus instrumentos, rudimentares e improvisados. A arte, no entanto, evoca ancestralidade, uma expressão livre. Ora bem detalhadas, ora lisas e suavemente arredondadas (seu traço peculiar). Porém, sempre equilibradas e em consonância com a medida do seu olhar e toque.

Criando outro mundo de barro com suas mãos de menina curiosa.

10 de novembro de 2012

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Sol, cerrado e povo

Meu amigo Fernando tinha um sonho: ser padre. E, como bom sertanejo, lutou, enfrentou suas limitações, superou-as. Vieram as perseguições externas, superou-as igualmente. Hoje, padre, toma conta de pessoas num lugar onde ainda é um tanto problemático ter fé, onde apesar de toda a riqueza que a soja gera, o povo não tem muitas opções de emprego e renda. Em Alagoas temos o mal da cana e no Tocantins, o da soja. Aqui quase não resta mata atlântica, lá o cerrado continuamente se esvai com as constantes queimadas. É um daqueles lugares esquecidos, que só lembramos da existência quando algo muito ruim acontece. Em ambos o povo resiste, se reinventa e migra para onde há esperança de uma vida melhor.

Sol, cerrado e povo.

Nestas fotos, que colhi acompanhando meu amigo pelas roças em que rezou missa, na zona rural do município de Aliança do Tocantins (e Porto Nacional), tentei captar (falo como se eu fosse um fotógrafo, ai ai) a alegria que Fernando transmite às pessoas com suas tiradas inusitadas e carisma, bem como os momentos solenes do culto católico. É também uma forma singela de homenagear o amigo.

As fotos seguem sem manipulação, apenas reduzi de tamanho para subi-las mais rápido.

Para onde se vá, bicicletas. 
Venera.
  

Festa de Nossa Senhora Aparecida. 
Leilão é algo comum em Aliança.


Fé na roça.

Terço.

Moça bonita.

Sorriso amarelo.

Reza.

Observa.

Resiste.

Sua.

Ouve.
 
Ex-pagão.

Sorriso falho.
 
Corpo e sangue.

Sorriso falho #2.
Coceirinha na orelha.


Hora do rango.

Segura.

Cruz.
 
Missa num assentamento.

Solenidade.

Improviso.

Improviso #2.

Luz para todos.

Olha.

Introspecção.

Solenidade #2.

Pai nosso...
Padre do povo.


Meninos e meninas.
Sorriso tímido.
 

Sorrisos.

Olhar desprentensioso.

Leilão na roça.
Galego.



Orla do rio Tocantins em Porto Nacional.

Praça do Mirante, com a catedral ao fundo. (Porto Nacional)

Orla do rio Tocantins em Porto Nacional #2.
Catedral da Diocese de Porto Nacional-TO.

Catedral da Diocese de Porto Nacional-TO. #2.
Catedral da Diocese de Porto Nacional-TO
no quadro em casa do Bispo Romualdo.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Do outro lado da festa

Agonia e Êxtase é o título de um filme clássico que conta a história de Michelangelo, o gênio renascentista, quando este assumiu a "simples" tarefa de pintar os afrescos da Capela Sistina. Agonia foi o que senti durante os preparativos do Festival Linha de Produção, primeiro evento de música que produzi ao lado dos companheiros do Coletivo A Fábrica: Zema, Thiago, Wenndell e Bruno. E êxtase ao soar o primeiro acorde da primeira banda a se apresentar no palco montado no pátio da escola onde passei boa parte da minha adolescência.

Produzir um evento de rock em União dos Palmares e região ainda causa muito estranhamento por conta da imagem deturpada que associam ao estilo musical. Poucas pessoas se arriscam a investir num projeto tão ambicioso e alternativo às opções de entretenimento corriqueiras. Com muito esforço e uma pitada de sorte conseguimos o patrocínio e o apoio necessários à realização do 1° FLP. Depois veio toda a logística: hospedagem, alimentação, material gráfico, transporte etc.

Ao longo de nossas reuniões jamais perdemos o bom humor e até o refinamos. Era com altas risadas diante das agonias que vislumbrávamos o êxtase. Deu tudo certo, é a palavra final do grupo. Era com muito refrigerante e salgados, também, que almoçávamos. Pesadelos viraram piada e não foram poucos, da minha parte, na reta final. Coisa de operário de primeira obra.

Circunstâncias irremediáveis nos forçaram a cancelar algumas atividades do projeto inicial, outras, de última hora, não diminuíram o tamanho da festa, que não deixou a desejar, dizem aqueles que estiveram lá e registraram o momento. Os comentários nas redes sociais foram gratificantes. E o apoio dos  nossos parceiros do coletivo Popfuzz, com todo seu know how, foi crucial.

Quase dois dias após a festa ainda estamos cansados, mas satisfeitos e já pensando nos ajustes para a próxima edição do FLP. Porque acreditamos no potencial de nossos artistas, nadamos contra a maré do mais do mesmo e apostamos alto na cultura alternativa como um meio de intervenção social, portanto política, para romper paradigmas e construir uma via de liberdade em meio às mazelas.

Aqui registro toda a nossa gratidão às bandas, aos amigos e ao público que compareceram. E aos nossos patrocinadores e apoiadores do projeto. Sem vocês não haveria festa nem beleza.

As mãos vão ficando calejadas, mesmo com luvas, a espinha fortificada de tanto envergar e o corpo se acostuma a ferver sob o uniforme. As engrenagens continuarão a girar, pois vapor não falta.

Festival Linha de Produção: agonia e êxtase. Expediente encerrado.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Perguntas

...mas, se não tivermos um ideal?

Se não sonharmos nem imaginarmos como o mundo que queremos se realizará?

Sonharão por nós aqueles que dominam o mundo?

Eles conhecem nossos anseios?

Onde enterramos nossos sonhos?