terça-feira, 25 de setembro de 2012

Do outro lado da festa

Agonia e Êxtase é o título de um filme clássico que conta a história de Michelangelo, o gênio renascentista, quando este assumiu a "simples" tarefa de pintar os afrescos da Capela Sistina. Agonia foi o que senti durante os preparativos do Festival Linha de Produção, primeiro evento de música que produzi ao lado dos companheiros do Coletivo A Fábrica: Zema, Thiago, Wenndell e Bruno. E êxtase ao soar o primeiro acorde da primeira banda a se apresentar no palco montado no pátio da escola onde passei boa parte da minha adolescência.

Produzir um evento de rock em União dos Palmares e região ainda causa muito estranhamento por conta da imagem deturpada que associam ao estilo musical. Poucas pessoas se arriscam a investir num projeto tão ambicioso e alternativo às opções de entretenimento corriqueiras. Com muito esforço e uma pitada de sorte conseguimos o patrocínio e o apoio necessários à realização do 1° FLP. Depois veio toda a logística: hospedagem, alimentação, material gráfico, transporte etc.

Ao longo de nossas reuniões jamais perdemos o bom humor e até o refinamos. Era com altas risadas diante das agonias que vislumbrávamos o êxtase. Deu tudo certo, é a palavra final do grupo. Era com muito refrigerante e salgados, também, que almoçávamos. Pesadelos viraram piada e não foram poucos, da minha parte, na reta final. Coisa de operário de primeira obra.

Circunstâncias irremediáveis nos forçaram a cancelar algumas atividades do projeto inicial, outras, de última hora, não diminuíram o tamanho da festa, que não deixou a desejar, dizem aqueles que estiveram lá e registraram o momento. Os comentários nas redes sociais foram gratificantes. E o apoio dos  nossos parceiros do coletivo Popfuzz, com todo seu know how, foi crucial.

Quase dois dias após a festa ainda estamos cansados, mas satisfeitos e já pensando nos ajustes para a próxima edição do FLP. Porque acreditamos no potencial de nossos artistas, nadamos contra a maré do mais do mesmo e apostamos alto na cultura alternativa como um meio de intervenção social, portanto política, para romper paradigmas e construir uma via de liberdade em meio às mazelas.

Aqui registro toda a nossa gratidão às bandas, aos amigos e ao público que compareceram. E aos nossos patrocinadores e apoiadores do projeto. Sem vocês não haveria festa nem beleza.

As mãos vão ficando calejadas, mesmo com luvas, a espinha fortificada de tanto envergar e o corpo se acostuma a ferver sob o uniforme. As engrenagens continuarão a girar, pois vapor não falta.

Festival Linha de Produção: agonia e êxtase. Expediente encerrado.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Perguntas

...mas, se não tivermos um ideal?

Se não sonharmos nem imaginarmos como o mundo que queremos se realizará?

Sonharão por nós aqueles que dominam o mundo?

Eles conhecem nossos anseios?

Onde enterramos nossos sonhos?

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Setecentos e trinta depois


O acúmulo de dias, noites e catástrofes só nos faz mais de nós.
A reconstrução interior é ainda mais árdua.
As formas não querem se encaixar, apesar da necessidade
Setecentos e trinta e tantas dores depois...

José Minervino Neto
União dos Palmares via Branquinha
18 a 20 de junho de 2012

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Imagens descoloridas



Ontem, 20/06*, foi o Dia Nacional do Cinema, o que não quer dizer muita coisa, convenhamos. Com raras exceções, poucos filmes brasileiros alcançaram um elevado grau de primor estético. Por essas bandas sempre faltou estrutura, de equipamentos à mentes, e apoio financeiro para desenvolver a indústria cinematográfica nacional.

Com exceção, talvez, do movimento Cinema Novo, que projetou a produção brasielira para fora, somente de uns quinze anos para cá o fator estético realmente ficou em primeiro plano. Boas narrativas, bons atores e aspectos técnicos importantíssimos da composição de um filme, como fotografia e trilha sonora, foram usados com maior critério. Porque não basta ter apenas "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça" para se produzir um BOM filme. 

Cinema é Arte, que, por sua vez, requer a expressão do belo, mesmo vindo carregado de cores não muito alegres. Algo distante das hilárias pornochanchadas e dos filmes-denúncias, herméticos, marcantes no cenário mais recente, ou das comédias clichês repletas de atrativos "globais". Próximo, porém, do sentimento universal diante de uma particularidade.

Ranulpho (João Miguel) e Johann (Peter Ketnath)
em Cinema, Aspirinas e Urubus (2005).
Para mim até o momento, oriundo de solo brasileiro, somente Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), dirigido por Marcelo Gomes e protagonizado pelo perfeito João Miguel e o alemão Peter Ketnath, logrou excelência, ao contar uma história ambientada no sertão, contudo permeada por uma sensibilidade forte, catártica, tocante a qualquer cidadão do mundo.

Há, claro, outras boas películas, jamais esqueceria de Central do Brasil (1998), que tem lugar cativo no meu ideário, Cidade de Deus (2002), Tropa de Elite 2 - o inimigo agora é outro (2010). Outros poderão ser adicionados à lista à medida que o acervo aumentar, por enquanto cito apenas estes.

Outro problema do cinema nacional é o público viciado nas fórmulas hollywoodianas, que lota salas de filmes como o péssimo Se eu fosse você (2005) - nada contra as boas comédias - e desdenha de outros mais consistentes, como o próprio Cinema..., também de 2005. Nossos cineastas precisam ser estimulados também pelos consumidores de cinema para continuarem a fazer bons filmes. E não, isso não quer dizer que eles ganharão um Oscar, essa premiação cada ano mais fisiológica, mas se vier que seja para um filme realmente digno.

O salto qualitativo tão ensaiado por décadas já foi dado, a tecnologia está acessível, há leis de incentivo e uma safra de atores (João Miguel, Wagner Moura, Alice Braga, Drica Moraes, sem contar os veteranos ainda na ativa) e diretores (Walter Salles, Fernando Meirelles, Marcelo Gomes, José Padilha) como não se via desde muito tempo. Tem-se todos os elementos para fazer cinema no Brasil e fazer bem-feito. 

É hora de evoluir, sair da casca e construir um cinema brasileiro deveras artístico e universalista.

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Há um equívoco quanto a data em que se comemora o Dia Nacional do Cinema, na verdade, é o dia 19 e não 20/06, como está acima.